Cemitério clandestino em Boa Vista revela atuação da facção Tren de Aragua em Roraima
Nove corpos, majoritariamente de venezuelanos, foram encontrados em um cemitério clandestino em Boa Vista no início de 2025. A Polícia Civil atribui as execuções ao Tren de Aragua (TDA), organização classificada pelos Estados Unidos como terrorista. O grupo atua em quatro municípios de Roraima com tráfico de armas, drogas e exploração de mineração ilegal
A descoberta de um cemitério clandestino em uma área de mata em Boa Vista, no início de 2025, revelou a face brutal da atuação do Tren de Aragua (TDA) em Roraima. Pelo menos nove corpos, em sua maioria de cidadãos venezuelanos, foram localizados após a denúncia de um ex-olheiro da organização, que relatou ser perseguido pela facção e ter a família sequestrada. As investigações apontam que as vítimas foram executadas por diferentes criminosos e enterradas no local.
A organização, fundada em uma prisão no centro-norte da Venezuela, expandiu sua operação para Colômbia, Bolívia, Peru e Chile, consolidando-se no Brasil, especialmente na região Norte. Em Roraima, o grupo opera em ao menos quatro municípios, utilizando a cidade de Pacaraima como hub logístico. A porosidade da fronteira, caracterizada por vegetações baixas e trilhas irregulares conhecidas como "trochas", facilita o transporte de armas desviadas de forças de segurança venezuelanas, drogas e pessoas.
O TDA é classificado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos como uma organização terrorista estrangeira, designação semelhante à aplicada ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao Comando Vermelho (CV). O governo americano acusa o grupo de envolvimento em sequestros, extorsão, tráfico humano para exploração sexual, contrabando, mineração ilegal e narcoterrorismo, além de apontar vínculos com o governo de Nicolás Maduro.
A estrutura da facção sofreu um impacto significativo em setembro de 2023, quando o governo venezuelano retomou o controle do Centro Penitenciário de Aragua, em Tocorón, berço da organização. Embora a operação tenha enfraquecido a cobertura política do grupo, relatos indicam que as lideranças foram alertadas e conseguiram fugir com recursos e armamentos. Atualmente, acredita-se que as ordens para as células brasileiras partam de Las Claritas, reduto controlado por Yohan José Romero, conhecido como Johan Petrica. Romero, apontado como um dos fundadores do TDA, foi indiciado pelos Estados Unidos por terrorismo e tráfico internacional de drogas, mas seu paradeiro é desconhecido.
No Brasil, a facção diversificou suas fontes de renda através do tráfico de armas e drogas, esquemas de prostituição e a exploração da mineração ilegal. O controle da extração de ouro, atividade que o grupo já exercia em Las Claritas desde 2010, tornou-se um pilar financeiro no território brasileiro. O TDA também estabeleceu parcerias com o PCC e o CV, facilitando o escoamento de cocaína vinda da Colômbia e a distribuição de armas de alto calibre para o Sudeste do país, utilizando Rorainópolis como base para o fluxo em direção ao Amazonas.
A população migrante venezuelana é a principal vítima dessa dinâmica. Entre 2018 e o fim de 2025, cerca de 1,4 milhão de venezuelanos migraram para o Brasil, dos quais 700 mil permaneceram no país. A Polícia Civil indica que membros de gangues se infiltraram nesse fluxo. Relatos apontam que imigrantes em situação de vulnerabilidade são recrutados sob falsas promessas de emprego como cozinheiros, mas acabam submetidos ao trabalho forçado em garimpos ou destinados à exploração sexual.
Dentro dos abrigos da Operação Acolhida, houve registros de extorsões, cobranças ilegais por alimentos e violência sexual. Em resposta a denúncias publicadas em 2024, o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome afirmou que a Força-Tarefa Logística Humanitária monitora as estruturas com apoio de militares e vigilância privada.
A brutalidade é a marca registrada do TDA, com a prática de "tribunais do crime" que resultam em decapitações e mutilações. Em Boa Vista, a polícia investiga outras áreas de descarte de corpos além do cemitério de Pricumã.
Apesar da presença da facção, Roraima registrou uma queda de 53,8% nos homicídios dolosos entre 2021 e 2024, totalizando 174 mortes no último ano, segundo dados do Ipea e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O governador Antonio Denarium defende a implementação de leis mais rígidas para a entrada de estrangeiros e a construção de um pavilhão exclusivo para presos estrangeiros, alegando que a extensão da fronteira facilita a movimentação de criminosos acuados na Venezuela.