Estados Unidos classificam PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras
O Departamento de Estado dos Estados Unidos incluiu o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho na lista de Organizações Terroristas Estrangeiras. A medida bloqueia bens das facções e de seus líderes em território americano e penaliza quem oferecer apoio aos grupos
A partir de sexta-feira (5/6), o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) passaram a integrar a lista de Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs) dos Estados Unidos. A medida, determinada pelo Departamento de Estado americano, implica a inclusão das facções no controle do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (Ofac), do Departamento do Tesouro. Na prática, a decisão bloqueia todos os bens das organizações e de suas lideranças em território americano, além de impor penalidades a qualquer indivíduo ou empresa que forneça apoio material, financeiro, logístico ou de consultoria aos grupos.
A designação ocorreu após o senador Flávio Bolsonaro (PL) cumprir agenda em Washington, onde se reuniu com o presidente Donald Trump, o vice-presidente J.D. Vance e o secretário de Estado, Marco Rubio. A ação foi contrária à posição do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que argumentava que a medida feriria a legislação brasileira — que diferencia crime organizado de terrorismo — e poderia comprometer a soberania nacional ao abrir precedentes para intervenções militares norte-americanas.
Apesar do rigor das sanções, o criminologista Nikos Passas, professor da Universidade Northeastern e colaborador de convenções da ONU contra o crime organizado, alerta que a estratégia pode fortalecer as facções. Segundo Passas, a pressão extrema frequentemente incentiva organizações criminosas a se tornarem mais resilientes, sofisticadas e organizadas. Ele observa que o PCC e o CV já demonstraram alta capacidade de adaptação nas últimas décadas, expandindo operações mesmo diante de repressões internacionais.
O especialista aponta que a classificação como terroristas pode empurrar as facções para a desdolarização, afastando-as do sistema financeiro dos Estados Unidos para evitar a jurisdição do Ofac. Como possuem forte atuação na África e na Europa, as sanções podem aprofundar esse distanciamento. Um efeito possível seria a sofisticação da lavagem de dinheiro, como a reintrodução de capitais lavados em Portugal na economia brasileira.
Passas ressalta ainda que a fragmentação de estruturas e a expansão para novas jurisdições geográficas são reações comuns ao cerco das autoridades. Para contornar a lei, as facções tendem a contratar assessoria jurídica e financeira especializada. Além disso, o viés político da decisão pode ser utilizado pelas próprias organizações para angariar apoio, alegando interferência externa em assuntos internos do Brasil.
A eficácia da medida depende, portanto, de uma cooperação estreita entre as polícias e governos dos Estados Unidos, Brasil, Europa e África. Sem esse alinhamento, o monitoramento das movimentações financeiras e operacionais torna-se mais difícil, pois a lei americana, embora tenha alcance extraterritorial, depende de acordos com autoridades locais para ser executada. Atualmente, não há clareza sobre como será a articulação conjunta entre Brasília e Washington diante desse novo cenário.