Justiça

Governo de Donald Trump estuda permitir a compra de fuzis pela internet com entrega domiciliar

14 de Julho de 2026 às 06:10

O governo de Donald Trump analisa a implementação da compra de fuzis via internet com entrega domiciliar e a verificação digital de antecedentes. A medida integra a revisão de normas para reverter restrições da gestão anterior e restaurar o direito de posse e porte de armas

Governo de Donald Trump estuda permitir a compra de fuzis pela internet com entrega domiciliar
AFP VIA GETTY IMAGES

O governo de Donald Trump estuda a implementação de medidas que permitiriam a compra de fuzis via internet com entrega domiciliar. A iniciativa faz parte de uma revisão de normas regulatórias para reverter restrições impostas pela gestão de Joe Biden, sob a justificativa de restaurar o direito constitucional de posse e porte de armas nos Estados Unidos.

No final de abril, o Departamento de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos (ATF) apresentou 34 propostas de alteração no comércio de armamentos. Entre as mudanças, destaca-se a eliminação da necessidade de comparecimento presencial a lojas físicas para a verificação de antecedentes criminais, processo que passaria a ser realizado digitalmente.

Impactos no tráfico internacional e segurança

A flexibilização do acesso a armas pesadas gera preocupações sobre o abastecimento de organizações criminosas, inclusive no Brasil. Especialistas apontam que a permissividade do mercado civil americano facilita transações suspeitas que, embora legais na origem, alimentam o contrabando.

Um dos métodos comuns de importação ilegal consiste no envio de armas compradas legalmente nos EUA, camufladas em mercadorias comuns. Exemplos recentes incluem:
* Um fuzil AK-47 vindo da Flórida, escondido em um forno, interceptado em Viracopos.
* Trinta fuzis desmontados em prensas hidráulicas, com destino a São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
* A maior apreensão de fuzis da história da Polícia Rodoviária Federal no Paraná, com 26 unidades, sendo 22 da marca americana Colt.

Além disso, em setembro de 2025, a administração Trump revogou restrições a exportações de armamentos civis para 36 países sensíveis, incluindo Paraguai, Colômbia, Peru e Suriname. O Departamento de Comércio dos EUA justificou a medida com a criação de oportunidades econômicas para a indústria armamentista. Contudo, a Anistri Internacional alerta que cerca de 20% das armas de crime de origem americana recuperadas na América Central provinham de exportações licenciadas.

Classificação de facções como terroristas

Em maio, o governo americano classificou o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. O governo brasileiro contestou a decisão, argumentando que tais grupos não possuem motivações terroristas e que a medida poderia abrir precedentes para ataques dos EUA em território brasileiro.

Para analistas, essa classificação tem baixo impacto no combate ao tráfico, pois não impõe sanções diretas aos revendedores americanos que exportam armas ilegalmente. A crítica é que a medida possui caráter mais político-eleitoral do que estratégico.

O cenário da produção de armas no Brasil

Paralelamente ao tráfico externo, o Brasil enfrenta o crescimento de fábricas clandestinas de fuzis, conhecidas como "armas fantasma". Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, essas unidades são a principal preocupação atual, pois reduzem o custo operacional do crime organizado.

Essas fábricas utilizam softwares de precisão e materiais da indústria naval para reproduzir plataformas como a AR-15 (americana) e a AK-47 (russa). Embora tenham menor durabilidade que as originais, são plenamente eficazes em combates urbanos. Um exemplo foi a desarticulação de uma fábrica em Santa Bárbara d'Oeste (SP), que simulava ser uma produtora de peças aeronáuticas e podia fabricar 3,5 mil fuzis por ano.

Dados de apreensões e regulação interna

O volume de fuzis apreendidos no Brasil saltou para 2.152 unidades em 2025, um aumento de 167% desde 2021. Entre 2019 e 2023, de 1.701 fuzis com origem identificada, 738 eram dos EUA e 586 eram brasileiros.

A análise do Instituto Sou da Paz indica que a flexibilização de regras ocorrida durante o governo de Jair Bolsonaro — que permitiu a CACs a compra de fuzis e até 30 armas por pessoa — também abasteceu o crime organizado através de "laranjas". Embora as regras tenham sido revogadas em 2023, as armas adquiridas no período permanecem com os proprietários, e a compra de munições continua sendo um vetor de desvio para as facções.

Para enfrentar esse cenário, o governo brasileiro criou a Rede Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Armas, Munições, Acessórios e Explosivos (Renarme), que integra os ministérios da Defesa, Fazenda e Justiça com governos estaduais.

Notícias Relacionadas