Justiça

PF prende Henrique Vorcaro em nova etapa da Operação Compliance Zero

14 de Maio de 2026 às 15:04

Henrique Vorcaro foi preso nesta quinta-feira (14) no âmbito da Operação Compliance Zero. A Polícia Federal investiga fraudes financeiras no Banco Master, lavagem de dinheiro, corrupção e ligações com o PCC. O esquema envolvia a falsificação de documentos, suborno de servidores do Banco Central e ataques cibernéticos

A prisão de Henrique Vorcaro, ocorrida nesta quinta-feira (14), marca o início de uma nova etapa da Operação Compliance Zero. Henrique é pai de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, instituição que foi liquidada pelo Banco Central ao final do ano passado após a detenção do banqueiro.

A investigação, que inicialmente focava na venda de títulos financeiros falsos, expandiu-se para um esquema complexo. A Polícia Federal apura agora crimes de lavagem de dinheiro, corrupção, organização criminosa, além de invasão de dispositivos informáticos, coerção e táticas de intimidação atribuídas a Daniel Vorcaro.

O núcleo da fraude consistia em inflar artificialmente o valor do Banco Master para simular solidez financeira e atrair bilhões de reais de investidores. Para isso, a instituição operava uma "linha de produção" de documentos falsos, como extratos, planilhas e contratos, simulando empréstimos inexistentes para registrar um patrimônio fictício. Um caso emblemático envolve ativos do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc), comprados por R$ 850 mil, mas registrados com valor superior a R$ 10 bilhões. O Banco Central também detectou inconsistências em Certificados de Depósito Bancário (CDBs), totalizando R$ 50 bilhões emitidos com promessas de juros acima do mercado, sem que houvesse liquidez para o pagamento.

Para ocultar as perdas e mascarar a origem dos recursos, Daniel Vorcaro utilizava a gestora Reag Investimentos. Através de uma "ciranda financeira", o dinheiro circulava entre fundos de investimento e empresas. O fluxo consistia em atrair capital via CDBs, emprestar esses valores a empresas e enviá-los a fundos da Reag, que compravam títulos antigos por valores inflados antes de devolver o recurso ao Banco Master.

A Polícia Federal também investiga a conexão entre essa estrutura e a Operação Carbono Oculto, que apura a lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC). O fundo Gold Style, administrado pela Reag, teria recebido cerca de R$ 1 bilhão de empresas ligadas à facção, como Inovanti, BK Bank e Aster Petróleo. Desse montante, R$ 180 milhões foram transferidos para a Super Empreendimentos, empresa dirigida por Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro. A PF também apura se a compra de participação na SAF do Atlético-MG foi financiada por lavagem de dinheiro.

A proteção do esquema era feita por uma estrutura organizada. Daniel e Henrique Vorcaro coordenavam dois braços operacionais sob a gestão de Luiz Phillipi Mourão — apelidado de “Sicário” e falecido após tentativa de suicídio em uma cela da PF em Belo Horizonte. O grupo atuava com monitoramento de ex-funcionários, concorrentes e jornalistas, utilizando ameaças e intimidação. Henrique Vorcaro é apontado como o articulador e financiador, com pagamentos mensais de aproximadamente R$ 400 mil para manter a organização.

No âmbito institucional, Daniel Vorcaro é acusado de pagar até R$ 1 milhão por mês a servidores de alta hierarquia do Banco Central para obter informações privilegiadas e antecipar fiscalizações. Por determinação do STF, esses servidores foram afastados e estão sob monitoramento por tornozeleira eletrônica. A PF investiga ainda a infiltração interna, suspeitando que a delegada Valéria Vieira Pereira da Silva e o agente Anderson Wander da Silva Lima tenham acessado sistemas sigilosos para proteger os Vorcaro.

A vertente digital do crime era operada pelo grupo de hackers “Os Meninos”, responsável por espionagem e ataques cibernéticos. A organização invadiu sistemas da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e de agências internacionais, como FBI e Interpol, para monitorar o andamento das investigações. O grupo também derrubava perfis em redes sociais e acessava dados sigilosos.

A Polícia Federal e o Ministério Público destacam que a organização manteve suas atividades, pagamentos e monitoramentos mesmo após as primeiras fases da Operação Compliance Zero. Essa capacidade de reorganização foi o argumento central para os pedidos de prisão preventiva efetuados nesta quinta-feira.

A defesa de Henrique Vorcaro argumentou que a decisão se baseia em fatos sem comprovação de licitude ou racionalidade econômica nos autos, alegando que a medida é grave e desnecessária, e que as explicações seriam apresentadas imediatamente.

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