Justiça

PGR denuncia brasileiros e chinês por tráfico de pessoas para trabalho escravo no Camboja

15 de Maio de 2026 às 06:12

A Procuradoria-Geral da República denunciou três brasileiros e um chinês por tráfico internacional de pessoas e organização criminosa. O grupo aliciou brasileiros via redes sociais para operar golpes virtuais no Camboja sob regime de trabalho escravo. A operação ocorreu em 2022 e vitimou ao menos 17 pessoas

A Procuradoria-Geral da República (PGR) denunciou três brasileiros e um chinês por organização criminosa e tráfico internacional de pessoas para fins de trabalho escravo. O grupo é acusado de aliciar cidadãos brasileiros com promessas de emprego no Camboja, onde as vítimas eram forçadas a operar esquemas de golpes virtuais sob comando de criminosos chineses.

A operação ocorreu ao longo de 2022, vitimando ao menos 17 brasileiros, embora depoimentos à Polícia Federal sugiram que entre 50 e 60 pessoas possam ter sido submetidas ao regime. Dois dos denunciados encontram-se presos na China, e o governo brasileiro já solicitou a extradição de ambos. A investigação identificou ainda outros três chineses envolvidos, mas, apesar de conhecerem os apelidos, as autoridades não conseguiram determinar as identidades reais desses indivíduos.

O recrutamento era feito por meio de redes sociais, como Facebook e Instagram, ou por meio de contatos prévios. Os aliciadores ofereciam pacotes completos, incluindo passagens, alimentação e hospedagem no hotel White Sand Palace, em Sihanoukville. Para dar aparência de legalidade ao negócio, eram apresentados contratos de trabalho e fotos do hotel, além de o grupo arcar com a compra de malas e a emissão de passaportes. As vítimas eram atraídas por vagas em marketing, bitcoins ou produtos financeiros, com salários mensais de US$ 900 e comissões de até 18%.

A jornada até o Camboja envolvia escalas em diversos países, como Tailândia, Catar, Turquia, Emirados Árabes e Alemanha. Durante o trajeto, houve registros de passageiros retidos em aeroportos por perda de conexão. Um grupo específico chegou a ser deportado da Tailândia após ter a entrada negada no Camboja, permanecendo detido por uma semana e sendo obrigado a pagar taxas pela permanência na cela antes de retornar ao Brasil com auxílio consular.

Ao chegarem ao destino, os passaportes eram recolhidos por funcionários do aeroporto e as vítimas eram encaminhadas ao hotel, onde eram recebidas por "líderes" brasileiros. Após um período de treinamento, descobriam que a função real era aplicar golpes contra outros brasileiros via internet.

No regime de trabalho, as vítimas tinham seus passaportes retidos e cumpriam jornadas de 12 horas, geralmente durante a noite e a madrugada, podendo a carga horária ser ampliada por decisão dos chefes caso a produtividade fosse considerada baixa. A alimentação e os itens de higiene fornecidos eram de péssima qualidade. A saída do hotel era restrita, exigindo autorização, acompanhamento de um líder e o envio de fotos dos pés dos trabalhadores aos patrões.

O salário prometido raramente era pago integralmente. Descontos entre US$ 200 e US$ 300 eram aplicados por motivos triviais, como demoras no banheiro, falta de autorização para deslocamentos internos ou por não desligar o ar-condicionado do quarto. Em um dos casos, a punição reduziu o pagamento mensal para US$ 400.

A estrutura criminosa operava dois modelos de fraude. No primeiro, os trabalhadores criavam perfis falsos para enganar lojistas, simulando a compra de produtos em plataformas e exigindo transferências financeiras para garantir a entrega, momento em que a vítima era desconectada e perdia o dinheiro. No segundo modelo, era operada uma plataforma de investimentos com promessas de lucros rápidos. Para atrair novas vítimas, os criminosos realizavam pagamentos iniciais, induzindo a pessoa a investir valores maiores. Os brasileiros foram coagidos a atrair amigos e parentes para o golpe, incluindo casos de filhos que induziram as próprias mães a investir. Os valores eram transferidos para a empresa Umbrella Importações Ltda e posteriormente convertidos em criptoativos.

A desarticulação do esquema no hotel White Sand Palace ocorreu no final de 2022, após a polícia cambojana iniciar fiscalizações. A situação se agravou quando um político brasileiro foi vítima de um dos golpes, o que levou à liberação dos últimos brasileiros retidos. Para retornar ao Brasil, as vítimas dependeram de ajuda financeira de organizações não governamentais e de familiares.

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