Justiça

Polícia Civil de São Paulo investiga fraude que usa inteligência artificial para clonar imagem de médico

07 de Julho de 2026 às 09:06

A Polícia Civil de São Paulo investiga a clonagem da imagem do médico Hélio Brasileiro por inteligência artificial em canais do YouTube. O esquema dissemina desinformação médica para idosos, sugerindo tratamentos naturais em substituição a medicamentos. O caso tramita no 3º DP de Sorocaba sob apuração de crimes como falsidade ideológica e falsa identidade

Polícia Civil de São Paulo investiga fraude que usa inteligência artificial para clonar imagem de médico
Reprodução

A Polícia Civil de São Paulo investiga um esquema de fraude digital que utiliza inteligência artificial para clonar a imagem e a identidade do médico otorrinolaringologista Hélio Brasileiro. O caso, encaminhado ao 3º DP de Sorocaba, apura a prática de crimes como falsidade ideológica, falsa identidade, falso alarme e tentativa de difamação.

A investigação aponta a existência de uma rede de canais no YouTube que mimetiza a aparência de profissionais de saúde para disseminar conteúdos alarmistas, focados principalmente no público idoso. No caso de Brasileiro, ao menos cinco canais utilizaram sua imagem sem autorização para sugerir tratamentos naturais em substituição a medicamentos prescritos e associar hábitos comuns, como banhos quentes no inverno, a riscos cardíacos.

Evidências indicam que a operação pode ser coordenada por um único grupo ou indivíduo, dado que diversas páginas foram criadas simultaneamente e compartilham roteiros e títulos idênticos. Um exemplo dessa repetição ocorreu entre 22 de maio e 8 de junho, quando vídeos sobre queijos prejudiciais à saúde de pessoas acima de 60 anos foram publicados sequencialmente nos canais "Dr. Hélio - Informações Médicas", "Dr. André Tavares", "Dr. Helio Consejos de Salud", "Dra. Aline Vitta" e "Dr. Hélio Saúde em Foco". Esse padrão de reaproveitamento de conteúdo foi identificado em pelo menos 20 canais diferentes.

A delegada Alessandra Silveira destacou que a simulação biométrica para a difusão de desinformação médica gera danos à reputação do profissional e expõe a população ao risco de automedicação ou envenenamento. A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo informou que realiza diligências para identificar e responsabilizar os autores.

O médico, que já possui um canal com 270 mil inscritos dedicado ao combate a notícias falsas, registrou boletim de ocorrência e denunciou os vídeos à plataforma. Apesar de o Google ter removido parte de páginas similares após alertas, os clones de Hélio Brasileiro permaneceram ativos. O YouTube orientou o médico a cadastrar sua imagem na plataforma para agilizar futuras remoções e afirmou, em nota, que proíbe desinformação médica capaz de causar danos graves, aplicando rótulos a conteúdos gerados por IA.

O impacto dessa prática é monitorado por organizações como a CTRL+Z, que mapeou mais de 70 milhões de visualizações em canais de saúde que utilizam IA. Para o Conselho Federal de Medicina (CFM), o risco é crítico, pois a substituição de tratamentos comprovados por orientações sem base científica pode ser fatal, especialmente para idosos com comorbidades. O CFM informou que denúncias desse tipo podem ser encaminhadas ao Ministério Público e à polícia.

No âmbito jurídico, a conduta pode ser tipificada como exercício ilegal da medicina quando a IA ou o operador do canal prescreve medicações ou tratamentos, configurando crime previsto no Código Penal. Além disso, a omissão de que se trata de um personagem artificial pode caracterizar falsa identidade. Juristas da FGV Direito Rio ressaltam que as plataformas digitais podem ser responsabilizadas civilmente caso não removam o conteúdo após notificação ou se houver impulsionamento pago de tais vídeos.

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