Canal de irrigação em Guayaquil torna-se ponto de descarte de corpos por organizações criminosas
Organizações criminosas utilizam um canal de irrigação de 45 quilômetros em Guayaquil, Equador, para desovar corpos. A polícia forense recolheu mais de 100 cadáveres do local desde 2023. A cidade registrou mais de 900 homicídios entre janeiro e maio
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Em Guayaquil, a principal cidade portuária do Equador, um canal de irrigação agrícola com 45 quilômetros de extensão tornou-se um depósito de cadáveres a céu aberto. Localizado no distrito de Nueva Prosperina, a região mais violenta da cidade, o canal é utilizado por organizações criminosas para desovar corpos desde o período da pandemia, transformando a área em um ponto de busca desesperada para famílias de desaparecidos.
A precariedade do local é marcada pela ausência de iluminação pública e de câmeras de segurança, com o acesso controlado por homens armados em motocicletas. Nesse cenário, a violência se manifesta em casos como o de Georgina Bermeo, de 38 anos, e José Cedeño, de 43, que foram baleados após um assalto e tiveram os corpos jogados no canal. O corpo de Georgina foi localizado por parentes em maio, caído entre ervas daninhas no noroeste da cidade. A família optou por não denunciar o crime, sob a justificativa de que as forças policiais estariam sob controle de criminosos.
Desde 2023, a polícia forense recolheu mais de 100 corpos do canal, encontrando vítimas nuas ou dentro de sacos. Em novembro, a brutalidade foi evidenciada com a descoberta de uma vala contendo nove torsos, braços e cabeças. Para Juan Ordóñez, líder comunitário com 40 anos de residência na região, a rotina é de medo e isolamento, com corpos frequentemente amontoados nas comportas ao final do canal.
A situação reflete a crise de segurança no Equador, que em 2025 registrou a média de um homicídio por hora. Guayaquil, porto estratégico para o tráfico de cocaína destinado aos Estados Unidos e à Europa, contabilizou mais de 900 homicídios entre janeiro e maio.
Paralelamente ao crime organizado, o Estado equatoriano também é alvo de denúncias. O Comitê das Nações Unidas para o Combate aos Desaparecimentos Forçados (CED) relatou, em março, ao menos 51 casos de desaparecimentos atribuídos a agentes governamentais desde 2024. Tais abusos, cometidos por militares e policiais, cresceram durante a estratégia de combate ao crime implementada pelo presidente Daniel Noboa. No poder desde 2023 e apoiado pelos Estados Unidos, Noboa mantém o país sob um estado de exceção quase permanente, embora a violência permaneça persistente na cidade de quase 3 milhões de habitantes.