Concílio de Jerusalém decidiu que a circuncisão não seria obrigatória para novos cristãos gentios
A circuncisão surgiu no Egito há 15 mil anos e é central no judaísmo e islamismo. No cristianismo, o Concílio de Jerusalém decidiu não impor o procedimento aos convertidos não judeus. Atualmente, a prática médica em recém-nascidos declinou em países ocidentais, exceto nos Estados Unidos
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A circuncisão, procedimento cirúrgico mais antigo do mundo, possui raízes que remontam a cerca de 15 mil anos no Egito. Embora tenha sido adotada por diversas culturas — como sumérios, semitas, maias e astecas — por razões que variam entre a higiene, rituais de passagem e marcas de identidade, a prática não foi universal. Na Grécia Antiga, por exemplo, o prepúcio era visto como um símbolo de beleza e virtude, tornando a remoção da pele um ato malvisto.
No contexto religioso, a prática consolidou-se no judaísmo como um pacto divino entre Deus e Abraão, estendendo-se à sua posteridade. Essa tradição foi seguida por Jesus, que foi circuncidado ao oitavo dia de vida, e por seus apóstolos. A circuncisão também permanece central no islamismo, fundamentada nos hadiths, registros das comunicações do Profeta Maomé.
A ruptura dessa tradição no cristianismo ocorreu por volta do ano 50, marcando o primeiro conflito institucional da igreja. O impasse centrou-se na expansão da fé para além dos judeus, atingindo os chamados "gentios" em regiões como a atual Turquia, Grécia, Síria, Líbano e Egito. Para esses não-judeus, a circuncisão era percebida como uma mutilação dolorosa e estigmatizada.
Paulo de Tarso, figura central na evangelização, argumentou que a salvação não dependia da circuncisão, mas do cumprimento dos mandamentos divinos, defendendo que a Lei de Moisés não deveria ser um obstáculo para os novos convertidos. Essa posição gerou tensões com outros apóstolos, como Pedro e Tiago. Em Antioquia, a divergência tornou-se pública quando Pedro, por receio de grupos conservadores, afastou-se de gentios, sendo confrontado por Paulo.
A questão foi resolvida no Concílio de Jerusalém. Após a exposição de Paulo sobre a adesão de fiéis não-judeus, os apóstolos decidiram não impor a circuncisão aos novos cristãos, exigindo apenas a abstinência de carne de animais estrangulados, sangue, sacrifícios a ídolos e imoralidade sexual. O acordo estabeleceu que Paulo focaria a pregação entre os pagãos, enquanto Pedro e Tiago atenderiam aos judeus.
Apesar da abolição geral no cristianismo, a prática persiste em grupos específicos, como nos cristãos coptas do Egito, ortodoxos da Etiópia e na Igreja Nomiya, no Quênia. Já em países de cultura cristã ocidental, a circuncisão disseminou-se por motivações médicas. Nos Estados Unidos, a partir de 1870, o médico Lewis Sayre promoveu o procedimento para prevenir e curar doenças, influenciando o Canadá, Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia. Atualmente, devido a divergências científicas sobre riscos e benefícios, a prática como prevenção em recém-nascidos declinou na maioria desses países, permanecendo predominante apenas nos Estados Unidos.