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Crianças em Gaza perdem a capacidade de falar devido a traumas graves do conflito

07 de Junho de 2026 às 06:07

Traumas graves causados pela guerra em Gaza levaram mais de um milhão de crianças ao mutismo e à retração social. Segundo a psicoterapeuta Katrin Glatz Brubakk, o estresse prolongado provoca danos neurológicos e cognitivos na população infantil da região

Crianças em Gaza perdem a capacidade de falar devido a traumas graves do conflito
Getty Images via BBC

O cenário de guerra em Gaza tem provocado um fenômeno de "sofrimento silencioso" entre a população infantil, onde crianças perdem a capacidade de falar como resposta neurológica a traumas extremos. De acordo com a psicoterapeuta infantil norueguesa Katrin Glatz Brubakk, que atuou em missões da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) entre 2024 e 2025, mais de um milhão de crianças na região sofreram traumas graves, resultando em casos crescentes de mutismo e retração social.

O bloqueio da fala ocorre quando o sistema nervoso, sob estresse prolongado e incerteza, entra em colapso para proteger a criança do ambiente hostil. Esse quadro gera danos cognitivos invisíveis: a amígdala, responsável pelas emoções intensas, tende a aumentar de tamanho, enquanto o córtex pré-frontal — área ligada à regulação emocional, planejamento e interação social — torna-se subdesenvolvido e com menos conexões neuronais. Sem a devida intervenção, essas sequelas podem ser permanentes, interrompendo o desenvolvimento linguístico e social essencial para a infância.

A gravidade da situação é exemplificada por casos como o de Adam, um menino de 5 anos que deixou de interagir com o mundo após presenciar a morte do pai e perder uma perna em um ataque. Outro exemplo é o de Mona, de 6 anos, que sofreu queimaduras graves em todo o corpo após a explosão de um botijão de gás em sua residência, evento que também vitimou dois de seus irmãos. Para essas crianças, a recuperação passa por terapias lúdicas, como o uso de bolhas de sabão para acalmar o sistema nervoso e a construção de brinquedos de papelão para processar as perdas por meio da brincadeira.

O contexto de violência permanece crítico. Mesmo após o anúncio de um cessar-fogo, o Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, relatou em abril que os ataques israelenses continuam rotineiros. Dados do ministério da Saúde local indicam que ao menos 846 pessoas, incluindo mulheres e crianças, morreram após o início do acordo. Israel justifica as operações como necessárias para enfrentar militantes do Hamas e proteger suas tropas, registrando a morte de cinco soldados no mesmo período. Ambos os lados se acusam de violar a trégua.

Desde outubro de 2023, o impacto humanitário é devastador. A Unicef contabiliza mais de 20 mil crianças mortas e 41 mil feridas em Gaza. No total, os ataques israelenses resultaram em mais de 72 mil mortes, a maioria de civis, e 172 mil feridos, segundo a Saúde de Gaza. O conflito foi desencadeado após ataques de militantes palestinos em território israelense, que causaram cerca de 1,2 mil mortes e deixaram mais de 200 reféns.

A psicoterapeuta Brubakk, com 12 anos de experiência em zonas de conflito como Congo, Líbano e Egito, afirma que o nível de destruição e trauma em Gaza é incomparável. Ela destaca que a ausência de locais seguros e a desestruturação do sistema de saúde aprofundam a crise. Atualmente, a equipe internacional da MSF enfrenta restrições de acesso ao território desde 1º de janeiro, dependendo de profissionais locais para a continuidade dos atendimentos.

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