Dinamarca utiliza embarcações autônomas para reforçar a vigilância de infraestruturas críticas no Mar do Norte
A Dinamarca testa quatro embarcações autônomas Saildrone Voyager para monitorar infraestruturas críticas no Mar do Norte e no Báltico. O projeto de três meses utiliza sensores e energia renovável para coletar dados e identificar navios

A Dinamarca iniciou a operação de quatro embarcações autônomas de 10 metros para intensificar a vigilância marítima no Mar do Norte e no Báltico. O objetivo é reforçar a proteção de infraestruturas críticas, como gasodutos, linhas de energia e cabos de dados submarinos, que têm sido alvo de danos recentes na Europa.
Os barcos-robôs, do modelo Saildrone Voyager, fazem parte de um teste operacional de três meses realizado em parceria com a empresa norte-americana Saildrone e as Forças Armadas dinamarquesas. Equipadas com sonar, radar, câmeras, sensores e sistemas acústicos, as embarcações funcionam como plataformas móveis de coleta de dados, operando com energia solar e vento. A tecnologia permite a observação de atividades acima e abaixo da superfície do mar, complementando o monitoramento já realizado por aeronaves, satélites e navios.
A implementação ocorre em um cenário de alta tensão estratégica no Báltico. Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 24 de fevereiro de 2022, os governos europeus e a Otan priorizaram a segurança de conexões elétricas e de telecomunicações, especialmente após a explosão dos gasodutos Nord Stream em 2022 e outras rupturas subsequentes. Tais incidentes geraram investigações sobre sabotagens, acidentes e operações híbridas. Em janeiro de 2025, a Otan lançou a operação Baltic Sentry para ampliar a presença militar na região e responder a atos desestabilizadores, integrando drones navais, fragatas e aeronaves de patrulha.
Os Saildrone Voyager utilizam inteligência artificial para organizar as informações captadas, permitindo identificar embarcações, registrar trajetórias e detectar manobras incomuns. Essa capacidade é fundamental para monitorar a chamada "frota fantasma" russa — navios que operam com propriedades opacas para burlar sanções internacionais no transporte de grãos, armas e petróleo — e para apurar casos em que âncoras de navios comerciais danificam cabos no fundo do mar. Richard Jenkins, CEO da Saildrone, destaca que a finalidade é expandir a capacidade de observação em áreas extensas e de difícil monitoramento, onde frotas comerciais passaram a atuar em contextos com implicações militares.
Paralelamente, a Dinamarca investe na modernização de sua defesa. Em abril de 2025, o governo anunciou um plano de aproximadamente 4 bilhões de coroas dinamarquesas (cerca de US$ 614 milhões) para a aquisição de 26 embarcações de patrulha e vigilância, além de sistemas de sonar e drones.
A escolha de uma fornecedora dos Estados Unidos para operar em áreas sensíveis gerou controvérsias internas na Dinamarca, envolvendo debates sobre soberania digital e dependência tecnológica, especialmente devido a tensões políticas entre Copenhague e Washington sobre a Groenlândia. O empreendedor David Heinemeier Hansson alertou que empresas americanas estão sujeitas a decretos e leis dos EUA, o que poderia acarretar riscos de bloqueio de contas ou exigências de dados. Jacob Herbst, presidente do Conselho Dinamarquês de Cibersegurança, também recomendou cautela na seleção de parceiros estrangeiros para sistemas de segurança.
Em resposta, a Saildrone informou que a operação não envolve acesso a dados classificados do governo dinamarquês e que todas as informações são criptografadas. O teste com os Voyagers representa a primeira experiência de defesa da empresa em águas europeias, avaliando a integração de veículos não tripulados a sistemas navais e centros de análise de dados para reduzir a exposição de tripulações e garantir a persistência da vigilância costeira.