Divisão política marca celebrações do 250º aniversário da independência dos Estados Unidos
As celebrações do 250º aniversário da independência dos Estados Unidos foram divididas entre a comissão America250, com foco em diversidade em Los Angeles, e a Freedom 250, que organizou eventos centrados na imagem de Donald Trump em Washington. A disputa envolveu divergências no financiamento federal, conflitos por patrocinadores e a substituição de artistas e programações culturais. Estados como Oregon e Utah realizaram celebrações independentes focadas em imigração e direitos civis
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As celebrações do 250º aniversário da independência dos Estados Unidos, realizadas no último sábado (4), foram marcadas por uma profunda divisão política e disputas sobre a narrativa histórica da nação. O evento, que deveria ser um símbolo de união nacional após quase uma década de planejamento, tornou-se o centro de um conflito entre a visão institucional do Estado e a agenda personalista do governo de Donald Trump.
A fragmentação das festividades ficou evidente na criação de duas frentes organizacionais distintas. De um lado, a comissão bipartidária America250, estabelecida pelo Congresso em 2016 para coordenar eventos educativos e culturais em todo o país, manteve a organização de um espetáculo em Los Angeles focado na diversidade, com apresentações de Queen Latifah, Chris Stapleton, Chaka Khan e Smashing Pumpkins. Do outro, a Freedom 250, grupo criado por decreto presidencial em janeiro de 2025, assumiu a gestão dos eventos federais em Washington, transformando a capital em uma vitrine para a imagem de Trump.
A programação na capital priorizou a figura do presidente, incluindo a inauguração da Great American State Fair — feira patriótica que substituiu desfiles comunitários e festivais culturais previstos anteriormente pelo Smithsonian Institution —, além de um desfile militar e um evento do UFC nos jardins da Casa Branca. A celebração em Washington contou ainda com a Orquestra Conjunta das Forças Armadas e a detonação de 850 mil fogos de artifício em dez pontos da cidade.
Essa dualidade gerou conflitos nos bastidores, com as duas comissões disputando patrocinadores privados, como Boeing, Deloitte, United Airlines, Palantir e UFC, além de lançarem campanhas publicitárias concorrentes durante o Super Bowl e promoverem concursos estudantis distintos. A polarização também afetou o financiamento: enquanto a America250 recebeu apenas US$ 25 milhões dos US$ 50 milhões previstos para atividades federais, apesar da aprovação de US$ 150 milhões pelo Congresso, a organização sem fins lucrativos ligada à Freedom 250 recebeu ao menos US$ 68 milhões do governo.
No campo cultural, a Freedom 250 enfrentou desistências em massa de artistas como Martina McBride, Young MC, Milli Vanilli e Bret Michaels, que alegaram surpresa com o teor político dos shows. A grade foi reformulada para incluir nomes alinhados ao conservadorismo, como o cantor Lee Greenwood, o tenor Christopher Macchio e Alexis Wilkins.
A mudança de tom nas comemorações é vista como um fenômeno inédito. Roberto Uebel, professor da ESPM, destaca que a política norte-americana costuma seguir protocolos institucionais, e que a associação de datas nacionais à imagem de um governante é atípica. Para o especialista, essa abordagem personalista coloca em xeque, perante aliados como Reino Unido e União Europeia, e rivais como China e Rússia, os valores tradicionais de democracia, justiça e liberdade dos Estados Unidos.
Oliver Stunkel, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), analisa que a Freedom 250 não é apenas organizadora de eventos, mas um instrumento político que impõe uma leitura específica da história, alinhada ao trumpismo. Ele compara esse movimento a tentativas passadas, como a idealização da memória confederada no Sul após a Guerra Civil, para apagar a brutalidade da escravidão.
Fora do eixo de Washington, diversos estados buscaram caminhos independentes. Em locais que não faziam parte das 13 colônias originais, como Oregon, Utah, Kansas, Dakota do Sul e Arizona, as celebrações focaram na "história completa", abordando temas como imigração, direitos civis, a perseguição a nipo-americanos e a expansão territorial. No Colorado, a exposição "Moments That Made Us" levou a 600 locais em 36 estados diferentes 50 fatos decisivos da história do país, incluindo a guerra com o México.
Apesar do esforço regional, a polarização persistiu. Organizadores relataram pressões tanto de setores conservadores, que rejeitam visões críticas do passado, quanto de grupos que questionam a validade de celebrar a independência diante de injustiças históricas. No plano político, o senador democrata Alex Padilla criticou a transformação da efeméride em uma plataforma de promoção pessoal do presidente.