Mundo

Enhanced Games em Las Vegas permite o uso de substâncias químicas para aprimoramento físico

27 de Maio de 2026 às 09:08

Las Vegas sedia a primeira edição dos Enhanced Games, competição que permite o uso de substâncias químicas para aprimoramento físico. O evento reúne 42 atletas de quatro modalidades, com premiações de até US$ 1 milhão para quem superar recordes mundiais

Enhanced Games em Las Vegas permite o uso de substâncias químicas para aprimoramento físico
AFP

Las Vegas tornou-se a sede da primeira edição dos Enhanced Games, evento que propõe a substituição do conceito de "esporte limpo" pelo aprimoramento físico induzido por substâncias químicas. A iniciativa, que permite o uso de drogas para melhora de desempenho (PEDs), é classificada pelo Comitê Olímpico Internacional como "idiota" e como uma afronta ao princípio do fair play.

A competição reúne 42 atletas nas modalidades de levantamento de peso, corrida de velocidade, natação e strongman. Entre os participantes estão nomes de peso, como o americano Fred Kerley, campeão mundial de 200 metros em 2022; o britânico Ben Proud, medalhista de prata nos 50 metros livre nas Olimpíadas de Paris; e o australiano James Magnussen, ex-campeão mundial dos 100 metros livre. Os competidores podem receber prêmios de US$ 1 milhão caso superem recordes mundiais, embora tais marcas não sejam ratificadas pelas federações internacionais devido à ausência de controles antidoping.

Diferente do modelo esportivo convencional, os atletas dos Enhanced Games utilizam substâncias aprovadas pela Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA (FDA), como eritropoietina (EPO), hormônio do crescimento humano e testosterona. O uso ocorre sob supervisão médica, incluindo avaliações de perfil de saúde e exames pré-competição.

O fundador do evento, o empresário australiano Aron D'Souza, defende a legitimidade da competição baseando-se na premissa de que o doping seria uma evolução inevitável e que a autonomia corporal deveria permitir que atletas escolham o que fazer com seus próprios organismos. D'Souza sustenta que o esporte limpo é um mito, citando dados que indicariam que 40% dos atletas de elite utilizam PEDs, apesar de apenas 2% serem flagrados. Ele também argumenta que o envelhecimento é uma doença superável por meio dessas substâncias e que a política de isenções terapêuticas nos esportes tradicionais seria um pretexto para o uso de drogas.

Contudo, análises sobre a estrutura do evento apontam contradições. Embora D'Souza pregue a autonomia, os atletas são submetidos a protocolos rígidos de dosagem e tempo de uso de medicamentos, além de coletas obrigatórias de sangue. A influência financeira também é citada como fator que obscurece a livre escolha, dado que os participantes recebem salários de seis dígitos apenas por competir. Além disso, as alegações sobre isenções terapêuticas ignoram dados que mostram que menos de 1% dos atletas olímpicos utilizam tais isenções, sem correlação direta com a conquista de medalhas.

O projeto conta com o apoio financeiro de figuras como o bilionário Peter Thiel, cofundador da Palantir Technologies, e da 1789 Capital, fundo ligado a Donald Trump Jr. A expansão do evento para o mercado de longevidade e saúde do consumidor coincide com mudanças regulatórias da FDA em 2026, sob a gestão de Robert F. Kennedy Jr., que flexibilizou a prescrição de peptídeos e testosterona. Para ampliar sua visibilidade e legitimidade, a organização utiliza influenciadores como Bryan Johnson e Joe Rogan.

A comercialização dessas substâncias gera alertas de saúde pública, especialmente pelo risco de danos irreversíveis causados pela prescrição excessiva de testosterona, fenômeno observado em homens jovens no movimento chamado "T Maxxing". Enquanto os atletas do evento possuem assistência médica 24 horas, a promoção agressiva de PEDs para o público geral, aliada ao conflito de interesses de organizadores que vendem esses produtos, é vista como uma imprudência institucional.

Notícias Relacionadas