Escassez de testes para variante do Ebola compromete resposta a surto no Congo e Uganda
A escassez de testes para a variante Bundibugyo do Ebola no Congo e Uganda resultou em mais de 500 casos suspeitos e 130 mortes. A OMS discute o uso emergencial de vacinas de outras cepas e enviou 18 toneladas de insumos à região. O combate ao surto enfrenta limitações financeiras, com apenas 34% dos recursos solicitados arrecadados
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A escassez de testes diagnósticos para a variante Bundibugyo do Ebola compromete a resposta ao surto que avança no leste da República Democrática do Congo e já atingiu Uganda, onde dois casos foram confirmados. De acordo com Anne Ancia, representante da Organização Mundial da Saúde (OMS) no país, a capacidade local de identificação dessa cepa rara é de apenas seis exames por hora, fator que retardou a detecção da epidemia. Atualmente, há mais de 500 casos suspeitos e ao menos 130 mortes relacionadas ao vírus.
A situação é agravada pela ausência de vacinas ou tratamentos aprovados especificamente para a variante Bundibugyo. Para enfrentar a crise, a OMS lidera encontros técnicos durante a 79ª Assembleia Mundial da Saúde, em Genebra, entre 18 e 23 de maio. O objetivo é definir a viabilidade do uso emergencial de imunizantes desenvolvidos para outras cepas, como a Ervebo, da farmacêutica Merck. Embora aprovada para a variante Zaire, a vacina Ervebo demonstrou proteção cruzada em testes com animais. A decisão final sobre a aplicação emergencial caberá aos governos do Congo e de Uganda, enquanto a aliança Gavi já disponibiliza 2 mil doses no território congolês.
No campo do diagnóstico, a BioFire Defense, subsidiária da francesa bioMérieux, amplia a produção do painel *BioFire Global Fever Special Pathogens Panel*. O teste, aprovado pela FDA dos Estados Unidos, é capaz de identificar múltiplas espécies do vírus, incluindo a Bundibugyo.
Para apoiar as operações de campo, a OMS enviou 12 toneladas de insumos ao Congo, com a previsão de chegada de mais seis toneladas nesta terça-feira (19). O material compreende equipamentos de proteção individual, itens para coleta de amostras, insumos laboratoriais e ferramentas de rastreamento de contatos.
Apesar dos esforços logísticos, a resposta enfrenta barreiras financeiras e estruturais. O Escritório das Nações Unidas para Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) recebeu apenas 34% dos US$ 1,4 bilhão (R$ 7,9 bilhões) solicitados para ações humanitárias no Congo este ano, sendo que mais da metade desse montante veio de Washington. Anne Ancia destacou que a redução de recursos globais para a saúde, impulsionada pelos cortes do governo de Donald Trump e pela saída oficial dos Estados Unidos da OMS em janeiro, prejudicou as operações, embora a cooperação técnica entre o país e a organização permaneça ativa.
A contenção da doença é dificultada pela natureza imprevisível da variante Bundibugyo, que torna a criação de protocolos rápidos e vacinas específicas um desafio. Somam-se a isso a instabilidade de segurança no leste do Congo, onde conflitos armados e entraves logísticos limitam a vigilância epidemiológica e a realização de estudos clínicos.