Europa e Ucrânia criam coalizão para desenvolver sistema de defesa contra mísseis balísticos
França, Ucrânia e mais oito países criaram uma coalizão para desenvolver uma defesa compartilhada contra mísseis balísticos. A iniciativa surge diante da ofensiva russa e do uso de mísseis hipersônicos, como o Oreshnik, que podem atingir o território europeu. Atualmente, a região mantém alta dependência do sistema americano Patriot
A Europa atravessa a fase de maior reavaliação de sua estratégia militar e de defesa desde o término da Segunda Guerra Mundial. O cenário é pressionado por dois fatores: a ofensiva russa contra a Ucrânia e a instabilidade nas relações com os Estados Unidos, especialmente diante das atitudes de Donald Trump, que ameaçou a integridade da Otan e mencionou a anexação da Groenlândia.
Nesse contexto, o presidente francês, Emmanuel Macron, e o líder ucraniano, Volodymyr Zelensky, anunciaram a criação de uma coalizão para estabelecer uma capacidade de defesa compartilhada contra mísseis balísticos. O grupo inicial é composto por Alemanha, Dinamarca, Espanha, França, Holanda, Itália, Noruega, Reino Unido, Suécia e Ucrânia, permanecendo aberto à adesão de outras nações, embora ainda não exista um cronograma definido para a implementação do sistema.
A ameaça dos mísseis hipersônicos
A urgência da iniciativa europeia foi intensificada no último dia 6, quando a Rússia disparou 23 mísseis balísticos que não foram interceptados pelas defesas ucranianas. Desde janeiro, Moscou tem utilizado com frequência o sistema Oreshnik, mísseis hipersônicos de alcance intermediário que podem atingir alvos a até 5.500 km de distância, com velocidades de 13 mil km/h. Tais armamentos, já instalados na Rússia e em Belarus, possuem potencial para alcançar grande parte do território europeu.
Diferente dos mísseis de cruzeiro, que voam baixo para evitar radares, os balísticos atingem altitudes de centenas de quilômetros, alcançando velocidades que podem variar entre 12 mil km/h e 30 mil km/h. A interceptação é complexa devido à altíssima velocidade na fase final do voo. Para mitigar riscos de danos colaterais, a neutralização deve ocorrer a longas distâncias do alvo.
Atualmente, a Rússia emprega tecnologias para burlar defesas, como:
- Mísseis cluster: ogivas que se dividem em projéteis menores no final do voo.
- Trajetórias imprevisíveis: manobras pré-programadas para confundir sistemas de interceptação.
- Tecnologia stealth: recursos furtivos que dificultam a detecção por radares.
- Aceleração terminal: aumento da velocidade na fase final para reduzir o tempo de reação da defesa.
Dependência tecnológica e alternativas
A Europa e a Ucrânia dependem majoritariamente do sistema Patriot, fabricado pela empresa americana Raytheon Technologies. Este sistema de mísseis terra-ar, operacional desde a década de 1980, é considerado o mais avançado do mundo para deter mísseis balísticos.
Apesar de receberem esses equipamentos dos EUA desde julho de 2025, a Força Aérea da Ucrânia enfrenta uma escassez severa de interceptadores, vulnerabilidade explorada por Moscou. Durante a cúpula da Otan, Donald Trump propôs conceder a Kiev uma licença para a produção independente de mísseis Patriot. Contudo, autoridades ucranianas alertam que a adaptação do parque industrial e a instalação da tecnologia necessária levariam anos para se concretizar.
Embora o continente europeu desenvolva projetos próprios há cerca de três anos, como o HYDIS e o EU HYDEF, a dependência do arsenal americano permanece alta. Essas iniciativas internas precedem a tensão política recente com a Casa Branca.
Enquanto a coalizão se organiza, o presidente Vladimir Putin mantém a postura rígida, prometendo retaliações aos ataques ucranianos contra terminais, petroleiros e refinarias, que provocaram a falta de combustíveis na Rússia.