Europa investiga cargueiro chinês por danos a cabos submarinos de telecomunicações no Mar Báltico
Investigações europeias apuram se o cargueiro chinês Yi Peng 3 causou danos aos cabos submarinos C-Lion1 e BCS East-West Interlink no Mar Báltico entre 17 e 18 de novembro de 2024. A OTAN suspeita que a embarcação operava sob influência russa. Em resposta, a aliança lançou a missão Baltic Sentry em janeiro de 2025

Investigações europeias concentram-se no cargueiro chinês Yi Peng 3, com bandeira de Hong Kong, como possível responsável por danos a cabos submarinos no Mar Báltico. A embarcação foi identificada próxima aos rompimentos do C-Lion1 e do BCS East-West Interlink, infraestruturas críticas de telecomunicações que conectam a Alemanha, a Lituânia e a Finlândia, ocorridos entre 17 e 18 de novembro de 2024. Autoridades europeias trabalham com a hipótese de que a âncora do navio tenha causado as avarias, embora ainda não tenha sido definido se o incidente foi acidental ou proposital.
O episódio integra um cenário de instabilidade na região, onde o número de cortes de cabos saltou de uma média de um evento anual, antes de 2022, para dez ocorrências desde aquele ano. O período entre novembro de 2024 e janeiro de 2025 foi particularmente crítico, com sete incidentes registrados em apenas dois meses. Entre eles, destacam-se os danos quase simultâneos em 25 e 26 de dezembro de 2024 ao C-Lion1 e ao EstLink 2, além de um corte na fibra óptica entre Helsinque e Tallinn em 31 de dezembro. Outro evento relevante ocorreu em outubro de 2023, atingindo o cabo Estlink 2 entre a Finlândia e a Estônia.
A inteligência da OTAN suspeita que o Yi Peng 3 operava sob influência russa, inserindo-se no conceito de "frota-sombra" — navios sem identificação clara utilizados para contornar sanções. Nesse contexto, a Finlândia deteve o navio Eagle S, de bandeira das Ilhas Cook. Enquanto a Rússia nega envolvimento, a Estônia acusa formalmente Moscou de coordenar essa frota desde 2023. A estratégia de controle regional russa também se manifesta no uso de um novo quebra-gelo nuclear de 150 MW para dominar a Rota do Mar do Norte.
O impacto técnico é imediato: o rompimento de cabos como o C-Lion1 reduz drasticamente o tráfego de dados entre Rostock e Helsinque, forçando operadoras a migrar para rotas alternativas onerosas. A vulnerabilidade é alta, pois mais de 95% das comunicações intercontinentais dependem de cabos submarinos. A recuperação é lenta, com reparos levando de duas a cinco semanas, e a frota global de 60 navios especializados é insuficiente para enfrentar sabotagens coordenadas.
Como resposta, a OTAN lançou em janeiro de 2025 a missão Baltic Sentry, mobilizando drones marítimos, aviões P-8 Poseidon e navios de superfície para dissuadir novos ataques. A Defesa Civil sueca implementou o monitoramento de rotas por drones submarinos autônomos. Para aumentar a resiliência, a Suécia já contratou a instalação de blindagem cerâmica, tecnologia que, segundo estudos do MIT, reduz em 80% o risco de cortes por âncoras, apesar de dobrar os custos de instalação. A OTAN planeja padronizar essa proteção em cabos de uso dual militar-civil até 2030.
A dificuldade de atribuição formal dos ataques a um Estado específico e a baixa cooperação investigativa de navios suspeitos evidenciam as limitações do regime jurídico de águas internacionais, levando os países do Báltico a discutirem mudanças no direito do mar.
No Brasil, a Anatel registra cerca de 20 cabos submarinos na costa, com o fluxo internacional concentrado no Rio de Janeiro e em Fortaleza. O cabo BRUSA, que liga o Ceará a Virginia Beach, nos Estados Unidos, ao longo de 10.500 km, é fundamental para o comércio bilateral. Embora o país não enfrente o mesmo nível de sabotagem observado no Báltico, a proteção das rotas atlânticas tornou-se um tema prioritário em Brasília, transformando o risco de interrupção de comunicações em uma preocupação real de segurança nacional.