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Governo do Irã apresenta acordo com Estados Unidos como vitória para neutralizar oposição interna

17 de Junho de 2026 às 12:06

O governo do Irã apresenta o memorando de entendimento com os Estados Unidos como uma vitória para neutralizar oposições internas. O acordo prevê a discussão sobre o alívio de sanções e a situação do Líbano em nova rodada de negociações na Suíça

Governo do Irã apresenta acordo com Estados Unidos como vitória para neutralizar oposição interna
Majid Asgaripour/WANA (West Asia News Agency) via REUTERS

O governo do Irã busca consolidar internamente a imagem de que o memorando de entendimento negociado com os Estados Unidos representa uma conquista da resistência, e não uma concessão. A estratégia visa neutralizar a resistência de setores da própria base de apoio da República Islâmica, que passaram meses condenando qualquer aproximação com Washington, em um cenário de economia pressionada e após a experiência de uma guerra devastadora.

A narrativa de vitória é sustentada por figuras centrais do regime. O presidente Masoud Pezeshkian descreveu o acordo como potencialmente transformador, capaz de resolver problemas internos e alterar a dinâmica do Oriente Médio. O respaldo também vem de Mohammad Bagher Qalibaf, presidente do Parlamento e principal negociador, que afirmou que o país deu um passo decisivo rumo à "vitória final". O apoio de Qalibaf é considerado estratégico por ele não integrar o campo moderado, sugerindo a anuência de setores influentes, incluindo a Guarda Revolucionária Islâmica.

Para Teerã, o acordo é apresentado como um triunfo pois, na visão da liderança, os Estados Unidos e Israel falharam em seus objetivos principais: não houve rendição do Irã, a República Islâmica permanece no poder, o programa nuclear não foi encerrado por via militar e os vínculos com o Hezbollah foram mantidos. Atualmente, o Irã permanece na mesa de negociações, discutindo o alívio de sanções e a inclusão do Líbano na estrutura do pacto.

Contudo, essa versão oficial enfrenta oposição interna. Um deputado da ala linha-dura, vice-presidente da Comissão de Segurança Nacional do Parlamento, classificou a minuta do acordo como um documento que transformaria o país em uma colônia americana. O parlamentar acusou os negociadores de desrespeitarem a ordem do líder supremo de não reabrir o Estreito de Ormuz ao tráfego comercial. Grupos conservadores e veículos alinhados ao governo argumentam que Washington não é um parceiro confiável, citando que o governo de Donald Trump teria utilizado as negociações como cobertura para ações militares de Israel e dos EUA.

Apesar das críticas, o silêncio recente de algumas vozes radicais sugere que o avanço foi autorizado pelo alto escalão do Estado, que teria concluído que o custo de rejeitar o acordo seria superior ao de enfrentar a insatisfação interna. O fator econômico é determinante: a inflação elevada, as sanções, as restrições à navegação e o acesso limitado a reservas em moeda forte e mercados de petróleo forçaram a necessidade de negociar.

Enquanto o governo tenta atribuir o acordo à sua capacidade de pressão militar — citando ataques a interesses energéticos dos EUA e ameaças no Estreito de Ormuz —, a população prioriza a contenção do custo de vida e o fim do risco de novos conflitos. Sobre a questão financeira, o vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, esclareceu que não haverá repasse de dinheiro de contribuintes americanos, mas que o Irã poderá acessar bilhões de dólares caso cumpra seus compromissos e as sanções sejam flexibilizadas.

A fragilidade do entendimento, porém, persiste. Detalhes do memorando ainda não foram totalmente divulgados, e temas críticos como o nível de enriquecimento de urânio, mecanismos de verificação, alívio de sanções e a situação do Líbano e do Estreito de Ormuz serão discutidos em nova rodada de negociações na Suíça, a partir desta sexta-feira (19).

No plano regional, a relação entre Washington e Tel Aviv apresenta fissuras que Teerã utiliza politicamente para sugerir que sua estratégia limitou a margem de manobra de Israel. Donald Trump criticou publicamente o número de mortos em operações israelenses no Líbano e demonstrou insatisfação com um ataque a Beirute ocorrido pouco antes do acordo, embora mantenha que sua relação com Benjamin Netanyahu é excelente. Por outro lado, Netanyahu rejeitou a possibilidade de Israel deixar o sul do Líbano, afirmando que as forças permanecerão no território pelo tempo necessário.

Essa divergência torna o acordo vulnerável: se Israel mantiver as operações no Líbano, o Irã sofrerá pressão para reagir, testando a eficácia da promessa americana de que o Líbano está contemplado no acordo. Entre os cidadãos iranianos, as reações variam entre a desconfiança quanto à condução do governo, a percepção de que a força militar foi necessária para forçar a flexibilização das sanções e a esperança de que o pacto proporcione um respiro temporário para a retomada da vida cotidiana.

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