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Grupo nacionalista russo realiza centenas de operações para reprimir atividades contrárias aos valores tradicionais

16 de Maio de 2026 às 06:12

O grupo nacionalista Russkaya Obshina realizou mais de 900 operações de fiscalização e repressão entre maio de 2023 e o final de 2025. A organização, composta por ex-militares e financiada por fundações ligadas ao Kremlin, atua com apoio da Igreja Ortodoxa e de forças de segurança. Suas ações focam no combate ao liberalismo ocidental e em ataques a migrantes

Grupo nacionalista russo realiza centenas de operações para reprimir atividades contrárias aos valores tradicionais
BBC

O grupo nacionalista Russkaya Obshina (Comunidade Russa) consolidou-se como a organização de rua mais ativa entre diversos movimentos semelhantes na Rússia, operando por meio de patrulhas informais e invasões a estabelecimentos como boates, clínicas de aborto, albergues e lojas. O objetivo do grupo é fiscalizar e reprimir atividades que considerem contrárias aos "valores tradicionais" ou à lei, pressionando as autoridades para que os alvos sejam processados.

Entre maio de 2023 e o final de 2025, o movimento realizou mais de 900 operações, das quais cerca de 300 contaram com a participação de forças de segurança. A atuação do grupo é marcada por ataques a migrantes, que aparecem em 25% de suas publicações em redes sociais, frequentemente acompanhados de linguagem racista.

A agenda do Russkaya Obshina está alinhada às diretrizes do presidente Vladimir Putin, especialmente no combate ao liberalismo ocidental e na promoção de valores familiares, reforçados por um decreto de 2022 sobre a preservação de valores espirituais e morais. O grupo também possui apoio da Igreja Ortodoxa Russa, que recomendou parcerias entre seus bispos e a organização.

Um exemplo da repressão promovida pelo grupo ocorreu em Arkhangelsk, onde Katya, organizadora de festas para o público alternativo, teve sua comemoração de 30 anos interrompida por homens mascarados. Embora a operação buscasse provas de "propaganda" LGBT — atividade ilegal no país —, nada foi encontrado. No entanto, Katya foi interrogada pela polícia e, posteriormente, condenada a 200 horas de serviço comunitário por blasfêmia, devido a um crucifixo de neon na parede da boate.

A estrutura do grupo é composta, em parte, por ex-militares feridos na guerra da Ucrânia que buscam aplicar seu treinamento militar no combate ao que definem como "intrusão estrangeira" na cultura russa. O Russkaya Obshina apoia abertamente o conflito na Ucrânia, tendo inclusive formado uma unidade militar conjunta com a brigada Espanola, composta por torcedores de extrema direita.

Apesar de se declarar como uma comunidade informal e sem filiação jurídica, evidências indicam que o grupo é financiado por fundações beneficentes ligadas a figuras próximas ao Kremlin. Entre os financiadores estão Sergei Mikheev, comentarista nacionalista, e o magnata do açúcar Igor Khudokormov. Este último possui vínculos com Dmitry Patrushev, vice-primeiro-ministro da Rússia, e comanda a Prodimex, empresa com relações comerciais na União Europeia.

A Embaixada da Rússia em Londres defendeu a atuação do grupo, afirmando que o apoio popular ao movimento reflete o interesse pela cultura nacional e tradições históricas. Por outro lado, pesquisadores de extrema direita e coordenadores de patrulhas civis registradas criticam a informalidade do Russkaya Obshina, classificando suas ações de intimidação e invasões como vandalismo e violações legais.

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