Hospitais da Alemanha buscam adaptações para enfrentar o aumento de temperaturas extremas no país
A Alemanha registrou um aumento de oito para 20 dias com temperaturas acima de 30 ºC no verão. Uma pesquisa de 2024 indica que 60% dos hospitais alemães não adotaram medidas contra o calor por falta de verbas. A Federação Alemã de Hospitais propõe a criação de um fundo climático de 31 bilhões de euros para modernizar a rede
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A Alemanha enfrenta um aumento progressivo na frequência de dias com temperaturas acima de 30 ºC, reflexo do aquecimento acelerado da Europa devido às mudanças climáticas. Enquanto entre as décadas de 1950 e 1970 o país registrava cerca de oito dias com esse índice nos verões mais quentes, a última década já apresentou recordes de 20 dias. Esse cenário é crítico para a saúde pública, especialmente durante as ondas de calor, caracterizadas por temperaturas superiores a 30 ºC por vários dias consecutivos, sem que os termômetros baixem de 20 ºC durante a noite.
A infraestrutura hospitalar alemã, em grande parte construída em épocas em que tais eventos eram excepcionais, não dispõe de sistemas de ar-condicionado na maioria de suas alas. No Centro Médico Universitário de Hamburgo-Eppendorf (UKE), a refrigeração artificial é restrita a salas de cirurgia e unidades de terapia intensiva. Para mitigar o calor, a instituição implementou, há três anos, um plano de proteção que utiliza a natureza como barreira térmica: a preservação de árvores, a manutenção de um parque frontal e a instalação de videiras nas fachadas dos prédios reduzem a temperatura do ar por evaporação e impedem o aquecimento das paredes.
No UKE, a estratégia inclui a instalação de quebra-sóis externos no prédio principal, que concentra metade dos leitos, além do uso de películas de controle solar e elementos de sombreamento interno em áreas onde a estrutura externa é inviável. A gestão do hospital prioriza a alocação de pacientes frágeis em quartos que aquecem mais lentamente e utiliza a ventilação noturna para resfriar as dependências dos funcionários. Frank Dzukowski, responsável pela sustentabilidade da unidade, destaca que a eficácia de um plano de proteção depende da atribuição de responsabilidades e da avaliação de experiências concretas.
Apesar de iniciativas isoladas, a rede hospitalar do país apresenta lacunas graves. Uma pesquisa de 2024 do Instituto Alemão de Hospitais revelou que 60% de 289 estabelecimentos consultados não adotaram medidas contra o calor. A falta de verbas foi apontada por 96% dessas instituições como o principal entrave, somada à burocracia e a prioridades econômicas imediatas. Gerald Gaß, presidente da Federação Alemã de Hospitais (DKG), afirma que os estados não cumprem a obrigação de refinanciar os custos de investimento, forçando as unidades a priorizarem a compra de equipamentos e reparos urgentes em detrimento da modernização climática.
Para reverter a situação, a DKG propõe a criação de um fundo climático de 31 bilhões de euros (R$ 183 bilhões), destinado a tornar os hospitais resilientes. Enquanto investimentos vultosos não ocorrem, a entidade sugere medidas de baixo custo, como a adaptação de refeições, uso de roupas leves, cobertores finos e instalação de bebedouros.
A gravidade do problema foi testada em uma simulação do hospital Charité, em Berlim, que projetou um cenário de várias semanas com temperaturas acima de 40 ºC e noites tropicais sem refrigeração. O exercício resultou na criação de um "mapa de calor" para identificar áreas de risco e refúgios frescos. A análise do Charité indicou que ondas de calor severas podem sobrecarregar pronto-socorros e causar escassez de pessoal, já que funcionários podem adoecer ou precisar de licenças familiares. Como resposta, o hospital prevê ajustes em escalas, terceirização de serviços e o adiamento de cirurgias e tratamentos ambulatoriais. A conclusão da equipe de crise é que, sem a intervenção do governo para reformar a estrutura hospitalar, a rede alemã não consegue garantir a assistência médica adequada durante crises climáticas extremas.