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Hungria registra queda na taxa de natalidade após período de incentivos financeiros do governo

21 de Junho de 2026 às 06:04

O governo da Hungria implementou incentivos financeiros e isenções fiscais para elevar a natalidade, que subiu de 1,25 em 2010 para 1,59 em 2020 e caiu para 1,31 em 2025. As medidas consumiram cerca de 5% do PIB, mas enfrentam críticas por priorizar bônus em detrimento de infraestrutura social

Hungria registra queda na taxa de natalidade após período de incentivos financeiros do governo
AFP via Getty Imagens, via BBC

A Hungria enfrenta um cenário demográfico crítico, com taxas de natalidade significativamente abaixo do nível de reposição de 2,1 filhos por mulher, necessário para a estabilidade populacional. O problema é agravado por altos índices de emigração e baixa chegada de imigrantes, refletindo uma tendência observada em mais da metade dos países do mundo e em grande parte da Europa desde a década de 1980.

Para combater esse declínio, o governo de Viktor Orbán, iniciado em 2010, implementou políticas agressivas de incentivo financeiro. O plano incluiu isenções fiscais, subsídios habitacionais e empréstimos livres de juros para casais heterossexuais casados e inseridos no mercado formal que prometessem ter filhos. Entre as medidas, destacam-se auxílios para a compra de veículos maiores e reforma de residências.

Essas ações geraram um impacto inicial: a taxa de natalidade subiu de 1,25 em 2010 para 1,59 em 2020, e o número de famílias com três ou mais filhos atingiu o pico de 146 mil no mesmo ano. No entanto, a tendência se reverteu, e em 2025 o índice caiu para 1,31. Em 2024, o volume de crianças recuou para 125 mil.

A eficácia dessas medidas é alvo de debate. Enquanto defensores argumentam que as políticas evitaram um colapso demográfico ainda maior, críticos apontam que os incentivos atraíram pessoas que já planejavam ter filhos, apenas antecipando o processo. Além disso, a inflação corroeu o valor real dos empréstimos, que chegam a 10 milhões de florins húngaros (cerca de R$ 170 mil).

Outro ponto de vulnerabilidade é a rigidez dos papéis de gênero e a falta de flexibilidade no mercado de trabalho, inclusive em empresas estatais. A ênfase no suporte financeiro imediato, em vez de investimentos em instituições sociais, igualdade de gênero e infraestrutura de saúde e educação, é vista como uma falha estratégica. Relatos de precariedade no sistema hospitalar público, por exemplo, pesam mais na decisão de ter filhos do que os bônus governamentais.

O custo dessas iniciativas foi alto, consumindo cerca de 5% do PIB húngaro. Apesar disso, o novo líder do país, Péter Magyar, mantém a popularidade das medidas, embora o governo atual esteja revisando a situação de quem não conseguiu cumprir a promessa de ter filhos.

A fragilidade do sistema é exemplificada por casais como Barbara Elek, assistente social de 33 anos, e Levi, chef de cozinha de 34. Após três tentativas de fertilização in vitro, o casal enfrenta a possibilidade de ter que devolver empréstimos com juros punitivos, que podem variar entre R$ 25,5 mil e R$ 59,5 mil, caso não comprovem a gravidez até 1º de novembro. Dados do Banco Nacional da Hungria revelam que um em cada cinco casais que contraíram esses empréstimos há cinco anos não teve filhos.

Globalmente, a Hungria não está sozinha em suas tentativas. A Coreia do Sul investiu mais de US$ 288 bilhões em bônus e auxílios, mas viu sua taxa de natalidade despencar para 0,8 em 2025. Em contrapartida, países nórdicos, como a Suécia, focaram em licenças parentais compartilhadas e creches universais, conseguindo maior proteção contra quedas abruptas, embora também tenham enfrentado oscilações recentes. Já Israel mantém índices acima da reposição, impulsionado por fortes fatores culturais e ideológicos, com gastos governamentais menos expressivos em benefícios diretos.

Fatores externos, como a pandemia de Covid-19, a guerra na Ucrânia e a instabilidade política global, também contribuíram para a insegurança das populações em relação ao futuro, retraindo a decisão de expandir as famílias em diversas regiões do mundo.

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