Hungria registra queda na taxa de natalidade após período de incentivos financeiros do governo
O governo da Hungria implementou incentivos financeiros e isenções fiscais para elevar a natalidade, que subiu de 1,25 em 2010 para 1,59 em 2020 e caiu para 1,31 em 2025. As medidas consumiram cerca de 5% do PIB, mas enfrentam críticas por priorizar bônus em detrimento de infraestrutura social
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/M/4/n8nE4kRuitccPHbPUHOA/hungria.png)
A Hungria enfrenta um cenário demográfico crítico, com taxas de natalidade significativamente abaixo do nível de reposição de 2,1 filhos por mulher, necessário para a estabilidade populacional. O problema é agravado por altos índices de emigração e baixa chegada de imigrantes, refletindo uma tendência observada em mais da metade dos países do mundo e em grande parte da Europa desde a década de 1980.
Para combater esse declínio, o governo de Viktor Orbán, iniciado em 2010, implementou políticas agressivas de incentivo financeiro. O plano incluiu isenções fiscais, subsídios habitacionais e empréstimos livres de juros para casais heterossexuais casados e inseridos no mercado formal que prometessem ter filhos. Entre as medidas, destacam-se auxílios para a compra de veículos maiores e reforma de residências.
Essas ações geraram um impacto inicial: a taxa de natalidade subiu de 1,25 em 2010 para 1,59 em 2020, e o número de famílias com três ou mais filhos atingiu o pico de 146 mil no mesmo ano. No entanto, a tendência se reverteu, e em 2025 o índice caiu para 1,31. Em 2024, o volume de crianças recuou para 125 mil.
A eficácia dessas medidas é alvo de debate. Enquanto defensores argumentam que as políticas evitaram um colapso demográfico ainda maior, críticos apontam que os incentivos atraíram pessoas que já planejavam ter filhos, apenas antecipando o processo. Além disso, a inflação corroeu o valor real dos empréstimos, que chegam a 10 milhões de florins húngaros (cerca de R$ 170 mil).
Outro ponto de vulnerabilidade é a rigidez dos papéis de gênero e a falta de flexibilidade no mercado de trabalho, inclusive em empresas estatais. A ênfase no suporte financeiro imediato, em vez de investimentos em instituições sociais, igualdade de gênero e infraestrutura de saúde e educação, é vista como uma falha estratégica. Relatos de precariedade no sistema hospitalar público, por exemplo, pesam mais na decisão de ter filhos do que os bônus governamentais.
O custo dessas iniciativas foi alto, consumindo cerca de 5% do PIB húngaro. Apesar disso, o novo líder do país, Péter Magyar, mantém a popularidade das medidas, embora o governo atual esteja revisando a situação de quem não conseguiu cumprir a promessa de ter filhos.
A fragilidade do sistema é exemplificada por casais como Barbara Elek, assistente social de 33 anos, e Levi, chef de cozinha de 34. Após três tentativas de fertilização in vitro, o casal enfrenta a possibilidade de ter que devolver empréstimos com juros punitivos, que podem variar entre R$ 25,5 mil e R$ 59,5 mil, caso não comprovem a gravidez até 1º de novembro. Dados do Banco Nacional da Hungria revelam que um em cada cinco casais que contraíram esses empréstimos há cinco anos não teve filhos.
Globalmente, a Hungria não está sozinha em suas tentativas. A Coreia do Sul investiu mais de US$ 288 bilhões em bônus e auxílios, mas viu sua taxa de natalidade despencar para 0,8 em 2025. Em contrapartida, países nórdicos, como a Suécia, focaram em licenças parentais compartilhadas e creches universais, conseguindo maior proteção contra quedas abruptas, embora também tenham enfrentado oscilações recentes. Já Israel mantém índices acima da reposição, impulsionado por fortes fatores culturais e ideológicos, com gastos governamentais menos expressivos em benefícios diretos.
Fatores externos, como a pandemia de Covid-19, a guerra na Ucrânia e a instabilidade política global, também contribuíram para a insegurança das populações em relação ao futuro, retraindo a decisão de expandir as famílias em diversas regiões do mundo.