Inglaterra utiliza árvores de Natal descartadas para reconstruir dunas de areia na costa de Lancashire
A Lancashire Wildlife Trust utiliza pinheiros descartados para reconstruir dunas na costa de Lancashire, Inglaterra. A técnica retém areia para ampliar defesas costeiras, resultando em um aumento de 90 metros na largura do sistema de dunas de Fylde

No noroeste da Inglaterra, a costa de Lancashire utiliza árvores de Natal descartadas para reconstruir dunas que servem como barreira natural contra o avanço do mar. A iniciativa, concentrada em praias ao sul de Blackpool, especialmente em Lytham St Annes, consiste no enterro de pinheiros doados por moradores em valas rasas. Os galhos funcionam como armadilhas de areia, retendo o material transportado pelo vento para ampliar gradualmente as defesas costeiras.
A ação integra o Fylde Sand Dunes Project, realizado pela Lancashire Wildlife Trust em parceria com os conselhos locais de Fylde e Blackpool, com financiamento da Environment Agency. A estratégia é necessária porque a região perdeu mais de 80% de suas dunas nos últimos 150 anos, reflexo da expansão urbana sobre áreas de vegetação e areia. O que antes era uma faixa extensa de dunas que avançava para o interior foi reduzido a trechos estreitos, aumentando a vulnerabilidade de casas, ruas e habitats a inundações e erosões.
A técnica, aplicada há mais de três décadas, substitui estruturas rígidas de concreto por resíduos sazonais para estimular a formação natural de dunas. Na campanha mais recente, foram recebidas mais de 2 mil árvores. A eficácia do método depende de variáveis como maré, vento e volume de areia, mas a Lancashire Wildlife Trust já registrou um aumento de cerca de 90 metros na largura do sistema de dunas de Fylde.
A recuperação dessas formações é urgente diante do cenário climático britânico. A Natural England estima que o Reino Unido tenha perdido 30% de suas dunas de areia desde 1900, devido a mudanças climáticas, desenvolvimento urbano e alterações no uso do solo. Complementarmente, o National Oceanography Centre informou em 2025 que a elevação do nível do mar no país acelerou desde o início do século XX, com dois terços desse aumento ocorrendo nas últimas três décadas, superando a média global. Esse fenômeno intensifica o impacto de ressacas, que removem a areia e lavam as dunas com maior frequência, levando os gestores do projeto a planejar a ampliação da altura das barreiras nos próximos anos.
Além da proteção civil, a reconstrução das dunas visa a conservação da fauna. Entre 2017 e 2021, o projeto participou da reintrodução do lagarto-da-areia, um dos répteis mais raros do Reino Unido. Desde 2018, 412 filhotes criados em cativeiro foram soltos na região. O monitoramento, conduzido pelo Conselho de Fylde e pela Lancashire Wildlife Trust, confirmou a adaptação da espécie por meio da identificação de cascas de ovos e filhotes nascidos no ambiente. Embora os animais evitem a presença humana, dificultando a visualização por visitantes, a presença de ovos em 2019 indicou condições ideais para a reprodução.
O uso de material orgânico é uma medida complementar que alia a gestão de resíduos à restauração de habitats. Com o tempo, as árvores são cobertas pela areia, e a estabilização final da duna ocorre por meio de vegetações como a *marram grass*, cujas raízes longas fixam o solo. Assim, a experiência em Lancashire combina o trabalho voluntário e a ecologia para mitigar a erosão costeira e preservar a biodiversidade local.