Irã estabelece sistema de controle e triagem para a passagem de navios no Estreito de Ormuz
O Irã controla a passagem de navios no Estreito de Ormuz via Guarda Revolucionária Islâmica, priorizando aliados e retendo embarcações. Entre 18 de abril e 6 de maio, menos de 60 navios atravessaram a região diariamente, volume inferior à média anterior. O petroleiro Agios Fanourios I foi liberado em 10 de maio após acordos entre Irã e Iraque
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O Irã consolidou um complexo sistema de controle sobre o Estreito de Ormuz, ponto estratégico por onde circula aproximadamente 20% do petróleo mundial, transformando a região em um gargalo logístico que impacta a economia global. O mecanismo, coordenado centralmente pela Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), estabelece critérios de triagem e prioridades de passagem, favorecendo aliados como Rússia e China, além de nações com relações próximas a Teerã, como Índia e Paquistão.
A eficácia desse domínio é ilustrada pelo caso do petroleiro Agios Fanourios I. Com 330 metros de comprimento e carregando 2 milhões de barris de petróleo bruto iraquiano para o Vietnã, a embarcação permaneceu retida na costa de Dubai desde abril. A liberação ocorreu apenas em 10 de maio, após um acordo direto entre os governos do Irã e Iraque, supervisionado pelo primeiro-ministro iraquiano Mohammed Shia al-Sudani.
Durante a travessia, que normalmente levaria cinco horas, mas durou dois dias, a tripulação seguiu rotas rigorosas determinadas pelo Irã, navegando rente à costa e passando por postos de controle nas ilhas de Abu Musa, Grande Tunb e Larak. Mesmo com a autorização prévia, o navio foi interceptado por lanchas rápidas da IRGC na Ilha de Ormuz sob suspeita de contrabando. Após inspeção, a embarcação foi liberada sem a realização de pagamentos, embora a empresa gestora, Eastern Mediterranean Shipping, atribua a passagem à pressão diplomática do Vietnã e do Iraque.
O cenário de tensão no estreito é evidenciado pelos números: no início de maio, cerca de 1.500 embarcações e 22.500 marinheiros estavam retidos no Golfo. Entre 18 de abril e 6 de maio, menos de 60 navios conseguiram atravessar a hidrovia, volume drasticamente inferior à média pré-guerra, que girava entre 120 e 140 passagens diárias.
Para navios sem acordos governamentais, o processo de liberação exige a entrega de um "documento de afiliação" via intermediários, detalhando a carga, bandeira, proprietários e nacionalidades da tripulação. A triagem envolve diversas instituições estatais iranianas, incluindo o Conselho Supremo de Segurança Nacional. Relatos do setor marítimo indicam que algumas empresas teriam pago mais de US$ 150 mil para garantir a passagem segura, embora tais transações sejam mantidas em sigilo por violarem sanções econômicas dos Estados Unidos.
A instabilidade é agravada por ataques a embarcações e pela resposta militar norte-americana, que impôs um bloqueio a cargas iranianas em um cordão de segurança fora do estreito. O próprio Agios Fanourios I, após deixar as águas iranianas, foi interceptado pela Marinha dos EUA e permaneceu derivando por seis dias para análise de documentação, sendo liberado em 16 de maio após pressões do governo vietnamita.
A Índia, que depende do estreito para importar 90% de seu petróleo e 50% de seu gás, utiliza a embaixada em Teerã para mediar a passagem de seus navios. Até 14 de maio, 13 embarcações indianas haviam atravessado a região, enquanto outras 13 continuavam retidas.
O governo da China manifestou preocupação com os arranjos impostos pelo Irã, defendendo que a navegação no estreito deve respeitar o direito internacional e as práticas globais.