Irã promove treinamento militar e armamento da população civil após ameaças dos Estados Unidos
O Irã iniciou a mobilização militar da população civil e o armamento de cidadãos após ameaças de ataques dos Estados Unidos. A Guarda Revolucionária oferece treinamento com fuzis e incentiva o alistamento de menores de 12 anos. Desde 28 de fevereiro, o governo executou ao menos 21 pessoas e deteve 4 mil indivíduos
O Irã iniciou uma mobilização militar generalizada de sua população civil após o presidente dos Estados Unidos ameaçar retomar ataques ao território iraniano. A medida, que prevê o cancelamento do cessar-fogo vigente, foi condicionada ao fracasso de negociações por um acordo de paz definitivo e à manutenção do controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz.
Como resposta, o governo de Teerã implementou uma campanha agressiva de armamento. A Guarda Revolucionária instalou diversos estandes em ruas e praças da capital para oferecer treinamento gratuito de montagem e manuseio de fuzis Kalashnikov a qualquer cidadão, incluindo crianças. A iniciativa se estende à televisão estatal, com transmissões ao vivo de instruções militares e disparos de armas dentro de estúdios. Além disso, propagandas oficiais incentivam o envio de meninos a partir dos 12 anos para a Guarda Revolucionária, prática classificada pela Anistia Internacional como crime de guerra.
A estratégia de militarização também permeia eventos sociais e a rotina urbana. Casamentos coletivos foram realizados em praças públicas com a presença de mísseis balísticos e a exigência de que os noivos, que chegaram em veículos militares e portando fuzis, se declarassem dispostos ao autossacrifício em caso de conflito. Paralelamente, desfiles militares com metralhadoras soviéticas tornaram-se quase diários em Teerã.
Essa movimentação é considerada atípica, pois o regime dos aiatolás tradicionalmente restringe o acesso a armas a milícias e grupos aliados. A decisão envolve riscos internos, dado que o armamento da população pode beneficiar manifestantes que protagonizaram intensos protestos contra o governo entre dezembro do ano passado e janeiro deste ano. Donald Trump já declarou ter enviado armamentos a esses manifestantes via aliados curdos para tentar derrubar a teocracia.
Para o professor de política internacional Tanguy Baghdadi, a campanha serve para mobilizar a base de apoio do regime em um cenário de grave crise econômica, marcado por demissões em massa, fechamento de empresas e inflação alta em alimentos e remédios. O governo afirma que mais de 30 milhões de pessoas, em um país de 90 milhões de habitantes, voluntariaram-se para morrer pela teocracia. A Nobel da Paz Shirin Ebadi, contudo, criticou a exposição pública de armas, especialmente o treinamento de crianças.
Enquanto promove a armação de seus apoiadores, o Irã intensificou a repressão interna e a execução de prisioneiros e manifestantes. De acordo com denúncias de ONGs, ao menos 21 pessoas foram executadas e 4 mil detidas desde o início da guerra, em 28 de fevereiro. Mahmood Amiry-Moghaddam, diretor da Iran Human Rights, aponta que o regime aproveita a baixa atenção internacional às violações de direitos humanos no país para realizar as execuções com baixo custo político.