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Islândia convoca referendo para decidir sobre a adesão à União Europeia em meio a instabilidades geopolíticas

22 de Junho de 2026 às 06:06

A Islândia convocou um referendo para 29 de agosto sobre a retomada das negociações de adesão à União Europeia. A medida ocorre diante da instabilidade geopolítica e de incertezas sobre o apoio dos Estados Unidos e da Otan à segurança do país

Islândia convoca referendo para decidir sobre a adesão à União Europeia em meio a instabilidades geopolíticas
Eyor Arnason/Getty Images via BBC

A Islândia, nação insular do Ártico que abdicou de possuir um exército permanente desde a sua independência da Dinamarca em 1944, enfrenta agora a necessidade de reavaliar sua estratégia de segurança nacional. Membro fundador da Otan em 1949, o país baseou sua defesa, durante décadas, na cooperação com os Estados Unidos e demais aliados da aliança, consolidando esse suporte por meio de um tratado bilateral firmado com Washington em 1951.

A relevância estratégica da ilha, situada a 2.300 quilômetros do Polo Norte, foi historicamente destacada por figuras como Winston Churchill, que a descreveu como um "porta-aviões inafundável". Na prática, essa proteção se manifesta por meio de patrulhas aéreas rotineiras de caças americanos e noruegueses, além de exercícios de reconhecimento realizados por forças aliadas. A base aérea de Keflavik, ponto crucial de monitoramento de submarinos soviéticos durante a Guerra Fria, continua sendo administrada pela guarda costeira islandesa, órgão que, junto às funções de resgate marítimo e vigilância de fronteiras, é uma das instituições mais valorizadas pela população.

A resistência interna à criação de forças armadas convencionais é expressiva: uma pesquisa recente indicou que 72% dos islandeses são contra a medida. Esse sentimento é reforçado por fatores geográficos, já que 80% do território é composto pelas Terras Altas — região de clima extremo, vulcões e geleiras praticamente desabitada —, o que torna a manutenção de um exército inviável diante da baixa densidade populacional.

Contudo, a estabilidade desse modelo foi abalada pelo cenário geopolítico atual e pelo retorno de Donald Trump à Casa Branca em 2025. A visão do presidente americano para o Ártico, somada a questionamentos sobre o compromisso dos EUA com a Otan e declarações ambíguas sobre a posse da Groenlândia — que chegaram a mencionar a Islândia —, gerou apreensão em Reykjavik. Embora a Casa Branca tenha esclarecido que as referências eram à Groenlândia, o episódio intensificou preocupações já existentes sobre a ameaça russa na Europa, especialmente após a invasão da Ucrânia em 2022.

Diante da volatilidade dos pilares de segurança tradicionais, o governo de coalizão da primeira-ministra Kristún Frostradottir promoveu uma mudança estratégica ao priorizar a aproximação com a União Europeia. O governo pretende reabrir as negociações de adesão ao bloco, interrompidas desde 2013, e convocou um referendo para o dia 29 de agosto.

A entrada na União Europeia é um tema divisivo. A Islândia já integra o espaço Schengen e a área de livre circulação de bens e pessoas, mas a adesão formal esbarra na resistência de eurocéticos, que temem a perda de soberania e a imposição de cotas sobre os recursos pesqueiros, base da economia local. Por outro lado, defensores da medida argumentam que a integração traria maior estabilidade monetária, combatendo a inflação superior à média europeia, e ofereceria um suporte político e de segurança essencial no contexto global contemporâneo.

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