Marrocos investe milhões em softwares estrangeiros para monitorar comunicações privadas e rastrear indivíduos globalmente
Marrocos investe milhões de euros anuais em softwares de espionagem de empresas israelenses, britânicas e americanas para monitorar comunicações globais. A operação conta com a colaboração de operadoras como Maroc Telecom e Orange Maroc para interceptar dados e voz. O arsenal inclui ferramentas como Pegasus, Hailstorm e Evident, com intermediação financeira dos Emirados Árabes Unidos
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Marrocos consolidou, ao longo de mais de uma década, uma infraestrutura de vigilância digital capaz de monitorar comunicações privadas e rastrear indivíduos globalmente, independentemente do uso de aplicativos criptografados como WhatsApp, Telegram ou Signal. A estratégia baseia-se no investimento de dezenas de milhões de euros anuais na aquisição de softwares de espionagem de empresas israelenses, britânicas e americanas.
A rede de espionagem e o papel das operadoras
Um pilar central dessa operação é a colaboração direta com empresas de telecomunicações. A Maroc Telecom, controlada pelo governo marroquino e pelo grupo emiratí Etisalat, atua como base para as operações da DGST (Direção Geral de Vigilância e Segurança). Servidores da operadora e do serviço de inteligência estão interconectados, permitindo a interceptação de voz e dados sem a necessidade de autorização judicial. Para evitar que os alvos percebam o aumento do consumo de internet causado pela extração de dados, a operadora fornece pacotes de dados ilimitados.
A Orange Maroc também possui histórico de cooperação, tendo implementado, em 2004, sistemas para duplicar e desviar o tráfego de rede para servidores governamentais.
O arsenal tecnológico
O governo marroquino utiliza um conjunto de ferramentas sofisticadas para diferentes objetivos:
- Pegasus (NSO): Considerado a arma mais poderosa do arsenal, permite a invasão completa de dispositivos. Foi utilizado em 2021 contra o presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, e seus ministros. Nos registros da empresa, Marrocos é identificado pelo código "MORGAN".
- Hailstorm (L3Harris): Tecnologia de IMSI catcher que rastreia telefones móveis via antenas paralelas, sendo ideal para monitorar alvos específicos em deslocamento, como autoridades estrangeiras em visita ao país.
- Nighthawk (Interionet): Software que permite o acesso remoto a câmeras de vigilância e outros dispositivos, mesmo aqueles não conectados à internet.
- RCS (Memento Labs/Hacking Team): Utilizado desde 2009 contra jornalistas e defensores de direitos humanos. Sob o código "PIACENZA", 80 agentes marroquinos teriam infectado mais de 2.000 dispositivos.
- Evident (BAE Systems): Ferramenta de espionagem em massa de tráfego de internet utilizada desde 2017 para localização exata e reconhecimento de voz.
- Reliant (Cognyte/Verint Systems): Focado em redes sociais e criação de bots para campanhas de difamação. Em 2014, Marrocos (codinome "Magazine") pagou 12 milhões de euros para interceptar comunicações em Android e iOS.
- Eagle (Amesys/Nexa Technologies): Adquirido em 2010 por 7,5 milhões de euros para interceptação massiva de comunicações.
- FinSpy (FinFisher): Software capaz de registrar teclas digitadas e controlar o sistema operacional do aparelho.
- Cellebrite: Utilizado desde 2015 para acessar conteúdos de dispositivos móveis bloqueados.
Financiamento e intermediação global
A aquisição dessas tecnologias envolve uma complexa rede de intermediários para contornar restrições éticas e legais. A empresa FSSYS Al Fahad, sediada em Abu Dhabi, atuou como ponte para que Marrocos adquirisse tanto o Pegasus quanto o RCS.
Esse modelo de negócio revela um fluxo onde os Emirados Árabes Unidos frequentemente financiam a operação, Israel fornece a tecnologia e Marrocos a executa. A partir de 2015, os Emirados intensificaram a vigilância doméstica e externa, contratando ex-agentes de inteligência da NSA para estruturar seus sistemas.