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Número de americanos que se mudam para a Irlanda supera o de irlandeses que emigram para os EUA

05 de Julho de 2026 às 15:02

Pesquisas indicam a queda na crença no "sonho americano", com a maioria da população considerando que os melhores dias do país já passaram. Esse cenário impulsiona a migração de cidadãos dos EUA para a Irlanda, Reino Unido e União Europeia. A redução da mobilidade social e a instabilidade econômica motivam a saída de profissionais para destinos como o Canadá

Número de americanos que se mudam para a Irlanda supera o de irlandeses que emigram para os EUA
Getty Images

A percepção de que o "sonho americano" — a promessa de que qualquer pessoa pode construir um futuro melhor nos Estados Unidos — está em declínio marca o período que antecede o aniversário de 250 anos da fundação do país. Pesquisas recentes, como a da Associated Press-NORC, indicam que apenas um terço da população ainda acredita na existência desse ideal, enquanto um estudo do Pew Research Center aponta que a maioria dos americanos considera que os melhores dias da nação já passaram.

Esse cenário de desilusão reflete-se em movimentos migratórios atípicos. Pela primeira vez, o número de americanos que se mudaram para a Irlanda superou o de irlandeses que emigraram para os EUA. Há também um aumento recorde de cidadãos americanos solicitando a cidadania britânica e buscando oportunidades de trabalho em quase todos os 27 países da União Europeia.

A instabilidade econômica e a falta de oportunidades são motores desse êxodo. No setor cinematográfico, por exemplo, o ator Luke Mullen, de 24 anos, planeja se mudar para Vancouver, no Canadá, alegando que a indústria em Hollywood estagnou investimentos e reduziu a contratação de profissionais para cortar custos. O Canadá tem se tornado um destino atraente não apenas por incentivos fiscais na área de cinema, mas também por oferecer sistemas de saúde considerados superiores.

A crise de identidade do sonho americano é evidenciada por trajetórias pessoais. Abdi Nor Iftin, de 41 anos, refugiado somali que imigrou em 2013 via programa de vistos de diversidade, conseguiu a cidadania e emprego no estado do Maine. No entanto, a perda recente de seu trabalho em uma agência de reassentamento de refugiados resultou na perda de seu plano de saúde, transformando sua antiga visão idealizada do país em uma realidade de apreensão.

Historicamente, o conceito de "sonho americano" popularizou-se na década de 1930, durante a Grande Depressão, definindo-se não apenas como prosperidade material, mas como uma ordem social onde indivíduos pudessem desenvolver plenamente suas capacidades. Contudo, esse ideal nunca foi universal, excluindo sistematicamente mulheres, pessoas escravizadas e povos indígenas. Martin Luther King Jr. já descrevia, em 1960, a contradição de uma nação fundada na igualdade, mas marcada pela segregação racial.

Do ponto de vista socioeconômico, a mobilidade social perdeu força nas últimas cinco décadas. Dados do economista Raj Chetty, de Harvard, revelam que, enquanto 90% dos nascidos em 1940 ganharam mais que seus pais, apenas metade dos nascidos na década de 1980 segue essa tendência. Sociólogos apontam que a globalização e a estagnação salarial a partir dos anos 1970, somadas à crise financeira de 2008, tornaram a estabilidade no emprego e a casa própria objetivos mais difíceis de alcançar.

Atualmente, a crença no ideal divide-se por faixas etárias e inclinações políticas. Republicanos e gerações mais velhas tendem a ser mais otimistas, enquanto apenas um em cada cinco adultos entre 18 e 29 anos acredita que o sonho americano ainda seja possível.

Apesar do ceticismo, setores da sociedade e think tanks, como o Archbridge Institute, argumentam que a essência do país ainda reside na possibilidade de prosperar partindo do zero. Para esses defensores, o ideal permanece vivo, embora exija a superação da atual polarização política e a reestruturação de políticas que garantam que a prosperidade econômica e a liberdade individual voltem a ser acessíveis a todos.

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