Papa Leão XIV pede perdão pela atuação da Santa Sé na legitimação da escravidão
O papa Leão XIV pediu perdão, nesta segunda-feira (25), pela legitimação da escravidão e pela demora na condenação da prática. Por meio da encíclica “Magnifica Humanitas”, o pontífice admitiu que papas anteriores autorizaram a subjugação de não cristãos
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/7/1/NieAAaSzWQD2vYAdbRCQ/ap26144308926038.jpg)
O papa Leão XIV pediu perdão, nesta segunda-feira (25), pela atuação da Santa Sé na legitimação da escravidão e pela demora de séculos em condenar a prática. O reconhecimento ocorreu por meio da encíclica “Magnifica Humanitas”, na qual o pontífice descreveu o histórico do Vaticano como uma “ferida na memória cristã”.
A medida atende a demandas antigas de estudiosos, ativistas e católicos negros dos Estados Unidos, que cobravam que a Igreja reconhecesse e reparasse sua responsabilidade no comércio colonial de seres humanos. Embora papados anteriores tenham se desculpado pelo envolvimento de cristãos no tráfico transatlântico, Leão XIV é o primeiro a admitir publicamente que antigos pontífices autorizaram soberanos europeus a subjugar e escravizar pessoas classificadas como “infiéis”.
O Vaticano, apesar de defender a dignidade humana, emitiu decretos no século XV que permitiram a Portugal a conquista de territórios na África e nas Américas. Em 1452, o papa Nicolau V publicou a bula "Dum Diversas", concedendo ao rei português e seus sucessores o direito de invadir, combater e reduzir a “escravidão perpétua” sarracenos, pagãos e outros não cristãos. Esse documento, somado ao "Romanus Pontifex" de três anos depois, fundamentou a Doutrina da Descoberta, teoria utilizada para justificar a tomada colonial de terras. Tais permissões foram posteriormente renovadas pelos papas Calisto III, Sisto IV e Leão X.
Embora o Vaticano tenha repudiado a Doutrina da Descoberta em 2023 e a Santa Sé cite o documento "Sublimis Deus" (1537) como prova de que indígenas não deveriam ser escravizados, as bulas papais originais nunca haviam sido anuladas oficialmente. Leão XIV destacou que a condenação explícita da escravidão por parte da Igreja só ocorreu em 1888, através do papa Leão XIII, quando a prática já havia sido abolida em diversas nações e instituições eclesiásticas ainda possuíam escravos.
O pontífice, primeiro papa nascido nos Estados Unidos, possui uma ancestralidade marcada por essa contradição: sua árvore genealógica inclui tanto proprietários de escravos quanto 17 ancestrais negros, registrados como mulatos, crioulos ou pessoas livres de cor, conforme pesquisa de Henry Louis Gates Jr.
O pedido de perdão amplia gestos anteriores. Em 1985, nos Camarões, e em 1992, no Senegal, o papa João Paulo II lamentou o tráfico de escravizados praticado por cristãos, mas não mencionou a responsabilidade direta dos papas. Recentemente, em visita a Angola, Leão XIV havia rezado em um antigo centro de tráfico de africanos sob domínio português, citando a dor dos angolanos sem, contudo, nomear a escravidão.
Ao tratar do passado, Leão XIV ponderou que decisões antigas não podem ser julgadas apenas por padrões atuais, mas ressaltou que isso não justifica a lentidão da Igreja em denunciar a escravidão. O papa concluiu que a instituição deve agora condenar firmemente as explorações ligadas à revolução tecnológica digital para evitar a necessidade de novos pedidos de perdão no futuro.