Parlamentares do Chile propõem que mulheres ouçam batimentos fetais antes de realizarem abortos legais
Parlamentares de direita e extrema direita do Chile propõem alterar o Código de Saúde para obrigar mulheres a ouvirem os batimentos cardíacos do feto antes do aborto legal. O projeto, assinado por seis legisladores, baseia-se em modelos da Hungria e de estados dos Estados Unidos
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/o/f/zxdX0URIuqvDfL5b7Heg/2026-03-12t143311z-980284935-rc2n2kazhozs-rtrmadp-3-chile-politics.jpg)
Um grupo de parlamentares de extrema direita do Chile propõe alterações no Código de Saúde para impor a obrigatoriedade de as mulheres ouvirem os batimentos cardíacos do feto antes de realizarem a interrupção da gravidez. A proposta, denominada "Escute o seu Coração", busca restringir ainda mais o acesso ao procedimento em um país onde o aborto é ilegal, exceto em três cenários específicos: risco de vida para a gestante, estupro ou inviabilidade fetal.
Base legislativa e articulação política
O projeto de lei está em fase inicial de tramitação e conta com a assinatura de seis legisladores. A composição do grupo é majoritariamente de direita e extrema direita, sendo cinco parlamentares dos partidos Nacional Libertário (PNL) e Republicano (PR), além de um representante do Renovação Nacional (RN), de centro-direita.
A iniciativa é impulsionada por deputados alinhados ao presidente conservador José Antonio Kast. Embora Kast seja um opositor convicto do aborto e pai de nove filhos, ele atribuiu a autoria do projeto ao Congresso, distanciando a medida de sua gestão direta para evitar o aprofundamento de conflitos culturais no país.
Argumentação e precedentes internacionais
O deputado Cristóbal Urruticoechea, do Partido Nacional Libertário e autor da proposta, defende que o acesso ao som dos batimentos cardíacos fornece informações necessárias para que a mulher tome sua decisão, alegando que a medida não seria prejudicial.
A proposta chilena segue modelos já implementados em outras regiões:
* Hungria: instituída em 2022 sob a gestão de Viktor Orbán.
* Estados Unidos: aplicada em estados como Texas, Geórgia, Arizona, Kentucky e Mississippi.
No Brasil, uma tentativa semelhante ocorreu em 2023, quando o então vereador Carlos Bolsonaro apresentou proposta análoga na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, porém a medida não prosperou.
Reações e críticas
A proposta enfrenta forte resistência de organizações de direitos humanos e ex-gestores públicos. Antonia Orellana, ex-ministra da Mulher do governo Boric, classificou a medida como uma "crueldade legislativa" e uma "aberração". Em artigo publicado no jornal La Tercera, Orellana questionou a pertinência de tal exigência para mulheres em situações de emergência médica ou casos de fetos que não sobreviveriam.
A ONG Miles Chile também manifestou oposição ao projeto. A diretora executiva da entidade, Javiera Canales, argumentou que a medida não configura consentimento informado, mas sim uma forma de coerção e pressão para impedir o aborto legal, ferindo a autonomia e a dignidade da mulher ao promovê-la a uma nova revitimização.