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Protestos na Bolívia causam bloqueios de estradas e dificultam o deslocamento de turistas brasileiros

23 de Maio de 2026 às 09:03

Protestos contra o governo de Rodrigo Paz causam bloqueios de estradas e escassez de combustível na Bolívia. O Itamaraty recomenda evitar viagens não essenciais a La Paz e Oruro, prestando assistência a brasileiros retidos. As manifestações exigem a renúncia do presidente e mudanças nas políticas agrária e de combustíveis

Protestos na Bolívia causam bloqueios de estradas e dificultam o deslocamento de turistas brasileiros
Gabriel Medeiros/Acervo Pessoal

A Bolívia enfrenta uma onda de protestos generalizados que resultou no bloqueio de estradas em diversas regiões do país, dificultando a mobilidade de residentes e turistas. As manifestações, que se intensificaram no início de maio, são direcionadas ao governo do presidente Rodrigo Paz, no poder há seis meses, e incluem demandas que variam desde a melhoria da qualidade do combustível e mudanças na política agrária até a renúncia do chefe de Estado.

O cenário de instabilidade impactou diretamente brasileiros em viagem. O designer Gabriel Medeiros, de Bauru (SP), está retido em La Paz desde 5 de maio. Com as rodovias bloqueadas, a única via de saída da capital tem sido o aeroporto de El Alto, que também sofre interrupções ocasionais, como ocorreu na última sexta-feira (22). A dificuldade de deslocamento elevou os preços das passagens aéreas, tornando-as inacessíveis para quem planejava seguir viagem por terra, como era o caso de Medeiros, que pretendia ir ao Peru.

Outro relato de dificuldade vem de Fabiane Gerotti Mendes, enfermeira de Campo Grande (MS). Durante roteiro para o Salar de Uyuni, ela enfrentou bloqueios com pedras e troncos em Potosí e Aiquile, chegando a ficar presa por duas noites em uma cidade do interior. A escassez de combustível, agravada pelos protestos, dificultou o abastecimento de seu veículo, forçando-a a encurtar a viagem e a buscar rotas de saída durante a madrugada para conseguir retornar a Santa Cruz de la Sierra.

O Itamaraty recomendou, desde 11 de maio, que se evitem viagens não essenciais aos departamentos de La Paz e Oruro, alertando que os bloqueios afetam pontos turísticos como Potosí, Copacabana e o Salar de Uyuni. O Ministério das Relações Exteriores informou que presta assistência consular aos brasileiros que reportaram dificuldades de locomoção.

A crise política é marcada por confrontos entre forças de segurança e manifestantes, especialmente em La Paz, onde a polícia utilizou gás e bombas para dispersar marchas de mineiros, camponeses e membros da Central Operária Boliviana (COB). A mobilização, descrita como uma tentativa de desestabilização do governo, reflete a insatisfação de diversos setores sociais.

O governo de Rodrigo Paz, de centro-direita, assumiu a gestão do país após 20 anos de domínio do Movimento ao Socialismo (MAS), agremiação de esquerda fundada por Evo Morales. A administração atual lida com uma grave crise econômica, caracterizada por inflação de 15% ao ano e escassez de moeda estrangeira e combustível.

Entre os gatilhos dos protestos estão a eliminação de subsídios ao combustível — que elevou preços e gerou questionamentos sobre a qualidade do produto, confirmados por análises técnicas da Universidade Superior de San Andrés (UMSA) — e a tentativa de implementar uma reforma agrária para transformar pequenas propriedades em médias. Embora o presidente tenha revogado a medida agrária após a pressão popular, a tensão persiste.

Além disso, o governo propôs uma reforma parcial da Constituição para atrair investimentos nos setores de mineração e hidrocarbonetos, o que é interpretado por críticos e aliados de Evo Morales como um passo para a privatização de recursos naturais.

No campo jurídico e político, Evo Morales é acusado de tráfico de pessoas e estupro de uma adolescente em 2015. Declarado em desacato à autoridade judicial em 11 de maio por não comparecer ao julgamento, o ex-presidente permanece recluso em Cochabamba, onde define as manifestações como uma "insurreição popular de base". O governo de Paz, por sua vez, afirma que Morales coordena os atos, acusação negada pelo ex-mandatário.

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