República Democrática do Congo declara estado de emergência sanitária devido ao surto do vírus ebola
A República Democrática do Congo declarou estado de emergência sanitária devido a um surto da variante Bundibugyo do ebola, com 550 infectados e 101 mortes. A epidemia concentra-se na província de Ituri e atingiu Uganda, onde há 16 casos e um óbito. A OMS e o Africa CDC planejam investir US$ 518 milhões no combate à doença
A República Democrática do Congo enfrenta um estado de emergência sanitária com a propagação do vírus ebola, que já soma 550 infectados e 101 mortes. O surto, declarado oficialmente em 15 de maio no nordeste do país, é causado pela variante Bundibugyo, que possivelmente circulava sem detecção antes do anúncio. A gravidade do episódio atual supera, em volume de casos, as epidemias anteriores da mesma cepa ocorridas em 2007 e 2012.
A crise concentra-se nas províncias de Ituri, Kivu do Norte e Kivu do Sul, regiões marcadas por conflitos armados. Ituri é o epicentro da doença, concentrando aproximadamente 90% dos casos e 76% dos óbitos. Apenas nas últimas 24 horas, o governo congolês confirmou 35 novos contágios e 10 mortes, distribuídos por 17 zonas de saúde em Ituri, sete no Kivu do Norte e uma no Kivu do Sul. O vírus já atravessou a fronteira para Uganda, onde foram registrados 16 casos e um óbito.
O combate à epidemia é dificultado pela instabilidade política e social. Grupos armados em Mambasa, Irumu e Djugu limitam o acesso de equipes humanitárias a áreas de risco, embora a capital de Ituri, Bunia, apresente relativa calma. A resistência local e a desconfiança resultaram em ataques a centros de tratamento e equipes de sepultamento, como ocorreu no último domingo no cemitério de Nyamurongo, em Bunia, deixando dois feridos graves e veículos danificados.
No campo médico, a ausência de uma vacina aprovada especificamente para a variante Bundibugyo representa um obstáculo crítico. Governos do Congo e de Uganda analisam o uso emergencial da vacina Ervebo, da Merck, que é indicada para a variante Zaire, mas demonstrou proteção cruzada em testes com animais. Paralelamente, a aliança Gavi disponibiliza 2 mil doses de vacinas contra ebola no Congo para eventuais campanhas ou testes. No setor de inovação, a farmacêutica Moderna e a Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias (Cepi) firmaram parceria para desenvolver um imunizante específico para a cepa Bundibugyo, com investimento inicial de até US$ 50 milhões. A BioFire Defense também expandiu a produção de testes capazes de identificar diversas variantes do vírus.
A resposta financeira ao surto enfrenta gargalos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e os Centros Africanos de Controle e Prevenção de Doenças (Africa CDC) lançaram um plano de US$ 518 milhões para atuar entre junho e novembro, focando em vigilância, testes, assistência clínica, coordenação de emergência e mobilização comunitária. No entanto, a OMS aponta que a redução de recursos globais, impulsionada por cortes do governo de Donald Trump e a saída dos Estados Unidos da organização em janeiro, prejudicou as operações. Dados do Escritório das Nações Unidas para Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) revelam que apenas 34% dos US$ 1,4 bilhão solicitados para ações humanitárias no Congo este ano foram arrecadados.
Apesar do cenário crítico, a OMS informou que o volume de casos suspeitos monitorados na África Central diminuiu, após a descartagem de centenas de notificações que se revelaram outras patologias ou quadros febris não relacionados ao ebola.