República Democrática do Congo enfrenta o terceiro maior surto de ebola já registrado
A República Democrática do Congo registra 1.077 casos suspeitos e 246 mortes pelo vírus ebola, concentrados em Ituri e Kivu do Norte. A cepa Bundibugyo não possui cura nem vacina, enquanto a OMS e o África CDC enfrentam reduções de verbas e cortes de doadores. Conflitos armados no leste do país dificultam a assistência médica e a logística de saúde
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A República Democrática do Congo (RDC) enfrenta o terceiro maior surto de ebola já registrado, com a propagação do vírus concentrada nas províncias de Ituri e Kivu do Norte. Desde a declaração oficial da epidemia em 15 de maio, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças da África (África CDC) contabilizaram 1.077 casos suspeitos e 246 mortes. A gravidade é acentuada pelo fato de a cepa Bundibugyo não possuir cura nem vacina disponível, com a previsão de que o desenvolvimento de um imunizante para essa variante leve ao menos nove meses.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta para o risco de expansão do vírus além das fronteiras do país, mas a capacidade de resposta imediata, que inclui o envio de especialistas e equipamentos, está comprometida por limitações financeiras. O cenário de escassez foi agravado pela saída dos Estados Unidos, anteriormente o maior contribuinte individual da organização, o que resultou no corte de diversos programas.
Essa instabilidade nos recursos reflete-se também nas promessas de apoio ao África CDC. Jean Kaseya, diretor-geral do órgão, informou em 29 de maio que parceiros reduziram a estimativa de envio de fundos de 500 milhões de dólares para 290 milhões. Paralelamente, a Alemanha, atual maior doador da OMS, também reduziu suas contribuições. O Ministério Federal de Cooperação Econômica e Desenvolvimento (BMZ) diminuiu o orçamento destinado à saúde e a ajuda ao desenvolvimento para a RDC, prevendo cerca de 160 milhões de euros para o período entre 2026 e 2027, valor inferior aos anos anteriores.
No terreno, a crise humanitária é intensificada por conflitos armados prolongados no leste da RDC, onde tropas governamentais, milícias e grupos criminosos disputam o controle de recursos naturais e territórios. A destruição de hospitais pela guerra dificulta a assistência médica e a logística de vacinação. Josue Ibulungu, da organização Diakonie em Goma, relata que apenas 30% da demanda por ajuda está sendo atendida.
A falta de investimento em prevenção e a fragilidade dos sistemas de saúde no Sul Global são apontadas por Julia Stoffner, da Brot für die Welt, como fatores que permitem que surtos permaneçam invisíveis por mais tempo. A organização critica a insuficiência de insumos, como os 500 trajes de proteção prometidos pelo governo alemão, e defende o fortalecimento de entidades locais para conter a propagação. Atualmente, há uma carência crítica de laboratórios e kits de testagem rápida para monitorar a cepa Bundibugyo.
O governo alemão, por meio do porta-voz Benedikt Schöneck, afirma que mantém o compromisso com a prevenção de epidemias e planeja enviar especialistas para treinar profissionais no leste da RDC, embora reconheça que cortes no apoio à prevenção gerem impactos diretos.
A urgência do financiamento é defendida também por entidades como CARE e Caritas, além do ex-ministro da Saúde da Alemanha, Karl Lauterbach. Para ele, o combate a surtos no continente africano é uma questão de interesse estratégico para a Europa, sob o risco de que o colapso dos sistemas de saúde locais impulsione fluxos migratórios de refugiados.