Roma reabre túneis subterrâneos do Capitólio que estavam fechados desde a era de Mussolini
A prefeitura de Roma reabrirá a Grottino del Campidoglio, rede de túneis fechada desde 1929, entre o final de 2026 e o início de 2027. O complexo de 3.000 metros quadrados passou por restauração de US$ 2,8 milhões e contará com sessões limitadas a 80 pessoas. O circuito museológico integrará itens recuperados e informações sobre o fascismo no centro da cidade

A prefeitura de Roma anunciou a reabertura da Grottino del Campidoglio, uma rede de túneis subterrâneos que permaneceu lacrada por quase um século. Localizado sob o Capitólio — colina considerada o marco simbólico da fundação da cidade e onde se encontra a Piazza del Campidoglio, projetada por Michelangelo no século 16 —, o complexo situa-se inclusive abaixo do Palazzo Senatorio, sede do governo municipal há quase oitocentos anos.
O fechamento da estrutura ocorreu em 1929, por determinação de Benito Mussolini. O regime fascista promoveu a reorganização do centro histórico para exaltar monumentos clássicos, eliminando distrações subterrâneas e expulsando moradores e comerciantes. Entre 1929 e 1935, mais de 5 mil famílias foram realojadas para viabilizar a "Roma fascista".
A rede abrange 3.000 metros quadrados, atingindo profundidades de até 300 metros. O circuito estende-se sob o Teatro de Marcello e o Fórum Romano, atravessando fundações que precedem a era romana. Ao longo da história, o espaço teve múltiplas funções: iniciou como pedreira, tornou-se cisterna e armazém comercial na Antiguidade, servindo como habitação popular de baixo custo no século 19.
A restauração, que custou US$ 2,8 milhões, permitiu que arqueólogos documentassem trechos não visitados desde a década de 1920. Durante as obras, foram recuperadas anforas romanas, marcas de uso comercial e anéis de ferro nas paredes, que indicam a utilização do local como estábulo. Parte desses itens integrará o circuito museológico em conjunto com o Museu Capitolino.
A abertura está prevista para o final de 2026 ou início de 2027, com ingressos controlados por sessões de até 80 pessoas. A infraestrutura contará com acessibilidade, guias em diversos idiomas e iluminação com projeções dinâmicas que simulam os usos históricos de cada câmara, seguindo a tecnologia aplicada em Pompeia — cidade que também recebe um novo circuito subterrâneo, segundo o Ministério da Cultura da Itália. O museu incluirá, ainda, um módulo sobre a história do fascismo no centro de Roma.
A iniciativa integra a estratégia de turismo cultural da cidade, que projeta receber mais de 30 milhões de visitantes em 2027. A reincorporação de patrimônios esquecidos ao turismo é uma tendência global, exemplificada pela abertura de uma câmara secreta na Pirâmide de Quéops e pela redescoberta da cidade medieval de Rungholt, no Mar do Norte.
No Brasil, o IPHAN registra patrimônios similares, como túneis do século 19 no Centro do Rio de Janeiro e galerias urbanas em Salvador e Olinda. Contudo, a falta de circuitos integrados gera uma perda estimada em R$ 2 bilhões anuais para o turismo cultural brasileiro. O modelo italiano de orçamento dedicado e parcerias privadas surge como referência para superar os desafios de financiamento de longo prazo em projetos nacionais.
A primeira fase de abertura não contemplará todo o complexo, pois as áreas mais profundas ainda demandam reforço estrutural e a definição de protocolos de segurança e fluxo de visitantes.