Rússia e Coreia do Norte negociam plano de cooperação militar com vigência até 2031
Rússia e Coreia do Norte negociam plano de cooperação militar para o período de 2027 a 2031, formalizando uma aliança que já mobilizou cerca de 14 mil soldados norte-coreanos no conflito ucraniano. O acordo, mantido sob sigilo, prevê compromissos específicos e se soma ao tratado de defesa mútua assinado em 2024. A parceria inclui envio de tropas, munição e mísseis norte-coreanos em troca de receita, tecnologia militar e proteção diplomática russa
A Rússia e a Coreia do Norte avançam na construção de uma estrutura militar conjunta que ultrapassa os limites da guerra na Ucrânia. Uma delegação chefiada pelo ministro da Defesa russo, Andrei Belousov, esteve em Pyongyang para negociar um plano de cooperação em defesa com vigência entre 2027 e 2031. O próprio Belousov definiu as bases do entendimento como “estáveis e de longo prazo”, sinalizando que a parceria deixou de ser um arranjo emergencial para se tornar um projeto institucional de integração entre as forças armadas dos dois países.
O conteúdo do plano permanece sob sigilo, mas a previsão é que seja formalizado ainda em 2026. Ele se soma ao tratado de defesa mútua assinado em junho de 2024, durante a visita de Vladimir Putin a Kim Jong-un na capital norte-coreana. Se aquele primeiro documento estabelecia princípios de assistência recíproca, o novo pacto acrescenta um horizonte temporal definido e compromissos específicos cujos detalhes não foram revelados. Autoridades norte-coreanas reiteraram apoio à política russa em questões de soberania e segurança nacional, indicando que a aliança é percebida como mutuamente vantajosa.
O aspecto mais visível dessa cooperação está no campo de batalha. Cerca de 14 mil soldados norte-coreanos foram enviados para lutar ao lado das tropas russas, concentrados principalmente na região de Kursk, onde forças ucranianas haviam realizado uma incursão em agosto de 2024. Integrados a unidades russas, esses combatentes participaram de operações ofensivas e defensivas. Autoridades da Coreia do Sul e da Ucrânia estimam que mais de 6 mil deles morreram em combate — uma taxa de baixas superior a 40%, que reflete tanto a intensidade dos confrontos quanto o emprego dessas tropas em zonas de alto risco. Se confirmado, o número representa uma das maiores perdas militares norte-coreanas desde a Guerra da Coreia, nos anos 1950.
Durante a estada em Pyongyang, a delegação russa inaugurou um memorial dedicado aos soldados norte-coreanos mortos em território russo. O gesto carrega forte simbolismo: a Coreia do Norte, que oficialmente nega o envio de tropas, reconhece indiretamente as perdas ao permitir a instalação do monumento. A presença de autoridades dos dois países na cerimônia indica que a participação no conflito é tratada como motivo de orgulho militar, e não como um segredo constrangedor. Para a comunidade internacional, o memorial funciona como confirmação de que a presença norte-coreana na guerra não é boato ou propaganda, mas um fato reconhecido pelos próprios envolvidos — o que dificulta futuras negativas e fornece evidências concretas para justificar sanções adicionais.
A lógica da aliança é transacional. A Rússia, que enfrenta dificuldades de recrutamento, obtém soldados, munição de artilharia e mísseis balísticos sem precisar recorrer a mobilizações internas politicamente custosas. Os combatentes norte-coreanos preenchem lacunas que o exército russo não consegue cobrir apenas com voluntários e contratados. Em troca, Kim Jong-un recebe receita em moeda forte, acesso a tecnologia militar russa, experiência real de combate para suas tropas e proteção diplomática no Conselho de Segurança da ONU, onde Moscou detém poder de veto. A cooperação pode incluir ainda transferência de tecnologia espacial e nuclear, embora nenhum dos dois governos confirme esse aspecto publicamente.
A formalização de um acordo até 2031 preocupa Estados Unidos, Japão e Coreia do Sul, que enxergam na parceria uma ameaça direta à segurança da Ásia-Pacífico. O horizonte temporal definido sugere que a aliança não se desfará com o eventual fim da guerra na Ucrânia. O cenário cria um precedente de cooperação militar entre um país detentor de armas nucleares e um Estado que desenvolve seu próprio arsenal atômico. Se houver transferência de tecnologia nuclear ou de mísseis como parte do entendimento, o equilíbrio de dissuasão na região poderá se alterar de forma irreversível. O pacto em negociação não trata apenas do conflito atual, mas do tipo de ordem internacional que Putin e Kim Jong-un pretendem construir.