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Startup japonesa desenvolve drone militar de baixo custo fabricado com papelão corrugado

05 de Maio de 2026 às 12:25

A startup japonesa AirKamuy desenvolveu o AirKamuy 150, um drone militar de papelão e resinas biodegradáveis com custo entre US$ 2 mil e US$ 2,5 mil. O equipamento atinge 120 km/h, possui alcance de 80 km e é utilizado como alvo em treinamentos da Marinha do Japão

A startup japonesa AirKamuy, sediada em Nagoya, desenvolveu o AirKamuy 150, um drone militar fabricado com papelão corrugado, resinas biodegradáveis e revestimento impermeável. Com custo unitário entre US$ 2 mil e US$ 2,5 mil, o equipamento é entregue desmontado em pacotes planos, o que permite o transporte de 500 unidades em um único contêiner padrão e a montagem em até 10 minutos, sem a necessidade de ferramentas especiais.

O projeto surge como uma resposta estratégica às lições da guerra na Ucrânia, priorizando a quantidade e o baixo custo em detrimento da sofisticação tecnológica. O CEO da empresa, Yamaguchi Takumi, destaca que a escolha do material permite a produção em massa em qualquer fábrica de embalagens, assegurando uma cadeia de suprimentos robusta para atender à demanda por drones que operem em grandes volumes e longas distâncias.

Atualmente em uso operacional, o AirKamuy 150 serve como alvo aéreo em treinamentos da Marinha do Japão. O ministro da Defesa, Shinjirō Koizumi, afirmou que a colaboração com startups de defesa é fundamental para que as Forças de Autodefesa japonesas se tornem referência global no uso de ativos não tripulados. A viabilidade financeira do modelo torna a perda de unidades em combate ou treinamento irrelevante, invertendo a lógica tradicional da indústria militar, onde a perda de um equipamento costuma representar prejuízos milionários.

Embora seja frequentemente chamado de "drone kamikaze", o engenheiro-chefe Naoki Morita esclarece que a função principal do equipamento é atuar como alvo de treinamento, sistema antidrone em enxames, plataforma de reconhecimento com baixa assinatura de radar e ferramenta de saturação de defesas aéreas. O objetivo é forçar a ativação de radares inimigos e absorver o fogo defensivo para proteger ativos mais valiosos. A função de carregar pequenas munições ou equipamentos de guerra eletrônica em missões sem retorno é considerada secundária.

Diferente dos drones iranianos Shahed, que custam entre US$ 20 mil e US$ 50 mil e focam em cargas explosivas significativas, a estratégia japonesa aposta no volume. Pelo preço de dois Shahed, o Japão pode mobilizar dezenas de drones de papelão para saturar defesas e criar janelas de oportunidade para ataques sofisticados.

Tecnicamente, o AirKamuy 150 atinge velocidade máxima de 120 km/h, com autonomia de 80 minutos a 2 horas e alcance de 80 km. O drone suporta carga útil de 1,4 kg, adequada para sensores de guerra eletrônica ou câmeras. O uso de motor elétrico reduz a assinatura acústica e elimina a dependência de combustíveis líquidos. Além disso, a baixa refletividade do papelão dificulta a detecção por radares projetados para metais ou fibra de carbono, e as resinas biodegradáveis evitam o acúmulo de detritos tecnológicos no ambiente. Economicamente, o drone expõe a disparidade de custos de interceptação, já que um míssil AIM-9X, com custo de US$ 1 milhão, é 500 vezes mais caro que o alvo que destrói.

Essa mudança de paradigma ocorre em um cenário de transformação geopolítica na Ásia-Pacífico. Após décadas de restrições devido à constituição pacifista de 1947, o Japão expandiu seus investimentos em defesa. A própria AirKamuy enfrentou resistência inicial de fundos de capital de risco, mas captou 100 milhões de ienes (cerca de US$ 650 mil) em maio de 2025, com apoio dos fundos ANOBAKA, Sparkle Fund e STATION Ai Central Japan Fund.

Para 2026, o orçamento de defesa japonês é de US$ 60 bilhões, sendo US$ 1,9 bilhão destinados a drones e sistemas não tripulados. Esse investimento integra o programa SHIELD, que visa bloquear o acesso de adversários ao território japonês por meio de uma rede de defesa costeira com drones, navios e submarinos não tripulados, focando especialmente nas ameaças da China e Coreia do Norte.

O Japão divide a tendência de drones descartáveis com a Coreia do Sul, que adotou o PapyDrone-800 em 2024. Outra startup japonesa, a JISDA, lançou em abril de 2026 o ACM-01 Shiraha, feito de madeira e custando US$ 450. Globalmente, a Ucrânia desenvolve modelos impressos em 3D por US$ 1 mil, enquanto os Estados Unidos trabalham no drone Lucas, estimado em US$ 10 mil.

Além do modelo de papelão, a AirKamuy desenvolve o Σ-1 (Sigma-1), um drone VTOL com autonomia superior a 5 horas e capacidade de decolagem vertical em navios, voltado para missões civis e militares, como busca e salvamento em desastres naturais. Informações da publicação Militär Aktuell indicam que a Ucrânia também receberá unidades do AirKamuy, permitindo a testagem do material em condições reais de combate.

Com informações de Click Petróleo e Gás

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