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Suíça abrirá arquivos secretos sobre a permanência do médico nazista Josef Mengele no país

16 de Maio de 2026 às 12:04

O Serviço Federal de Inteligência da Suíça abrirá arquivos secretos sobre o médico nazista Josef Mengele. A decisão ocorreu após ação judicial do historiador Gérard Wettstein para investigar a possível permanência do criminoso no país

Suíça abrirá arquivos secretos sobre a permanência do médico nazista Josef Mengele no país
CRÉDITO, ULLSTEIN BILD / GETTY/BBC

O Serviço Federal de Inteligência da Suíça anunciou que abrirá os arquivos secretos referentes a Josef Mengele, médico nazista da Waffen-SS conhecido como "Anjo da Morte". O criminoso de guerra, que atuou no campo de extermínio de Auschwitz selecionando vítimas para as câmaras de gás e realizando experimentos sádicos com crianças e gêmeos, fugiu da Europa após a Segunda Guerra Mundial e morreu no Brasil em 1979.

A decisão de liberar os documentos ocorre após sucessivas negativas do governo suíço a historiadores que buscavam entender a possível permanência de Mengele no país. Os arquivos estavam lacrados até 2071, sob a justificativa de segurança nacional e proteção familiar. A mudança de postura das autoridades aconteceu após o historiador Gérard Wettstein levar a disputa aos tribunais, processo que contou com financiamento coletivo de aproximadamente 18 mil francos suíços.

A investigação sobre a presença de Mengele na Suíça ganhou força com as pesquisas da historiadora Regula Bochsler. Ela identificou que, em junho de 1961, a inteligência austríaca alertou a Suíça sobre a possibilidade de o nazista estar em território suíço utilizando um nome falso. Na mesma época, a esposa de Mengele alugou um apartamento em um subúrbio de Zurique, próximo ao aeroporto internacional, e solicitou residência permanente. Registros da polícia de Zurique confirmam que o imóvel foi monitorado em 1961, chegando a registrar a movimentação da esposa com um homem não identificado.

Embora seja oficial que Mengele viveu na América do Sul após fugir da Europa em 1949 — utilizando documentos da Cruz Vermelha obtidos no consulado suíço em Gênova —, sabe-se que ele retornou aos Alpes suíços para esquiar com o filho, Rolf, em 1956. A suspeita de um novo retorno em 1959, após a emissão de um mandado internacional de prisão, é corroborada por precedentes de outros nazistas, como Walter Rauff, que deixaram a América do Sul para retornar à Europa após a captura de Adolf Eichmann em 1960.

Apesar da abertura anunciada, historiadores manifestam preocupação com a possibilidade de censura nos documentos. O Serviço Federal de Inteligência informou que o acesso será concedido sob condições e requisitos ainda não definidos. Sacha Zala, presidente da Sociedade Suíça de História, sugere que o sigilo prolongado pode não estar ligado a Mengele em si, mas à menção de agências de inteligência estrangeiras, como o Mossad, que rastreava criminosos nazistas na época.

Jakob Tanner, ex-integrante da Comissão Bergier, argumenta que a resistência suíça em abrir os arquivos reflete a tensão entre a segurança nacional e a transparência histórica, além de remeter à sensibilidade do país sobre sua conduta na Segunda Guerra Mundial, quando bancos suíços custodiaram fundos de famílias judias vítimas do Holocausto.

Mengele nunca foi preso ou condenado. Sua identidade foi confirmada apenas em 1992, por meio de testes de DNA, após a exumação de um corpo enterrado sob nome falso no Brasil. A divulgação dos arquivos agora poderá esclarecer se o Estado suíço ignorou a presença do criminoso para evitar escândalos ou se as suspeitas de sua estadia no país são infundadas.

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