Tanzânia lidera a adoção de veículos elétricos na África Oriental com foco em utilitários
A Tanzânia lidera a mobilidade elétrica na África Oriental com 10 mil veículos, incluindo a picape KP A72E da Kaypee Motors. O modelo possui autonomia de 160 quilômetros e custo operacional inferior aos veículos a combustão. O governo aprovou o Marco Político Nacional de Veículos Elétricos para expandir a rede de recarga até 2030
A Tanzânia consolidou-se como líder na adoção de mobilidade elétrica na África Oriental, superando vizinhos como Uganda e Quênia. Com cerca de 10 mil veículos elétricos em circulação, a maioria composta por triciclos e motos, o país agora expande a oferta para utilitários, exemplificados pela picape KP A72E, desenvolvida pela Kaypee Motors.
O veículo é fruto do trabalho de Ally Masoud, conhecido no cenário africano como o cartunista político "Kipanya". Sem formação em engenharia, Masoud fundou a Kaypee Motors e dedicou aproximadamente dois anos, a partir de 2020, para a construção artesanal da picape em sua oficina em Dar es Salaam. O projeto, idealizado ainda em 2013, sofreu atrasos devido à pandemia de Covid-19, mas resultou em um modelo que combina chassi e carroceria locais com motor e baterias importados da China.
Apresentada inicialmente em abril de 2022 no shopping Mlimani City, a picape evoluiu de um protótipo com autonomia de 50 a 60 quilômetros para a versão atual, a KP A72E. Este modelo avançado oferece autonomia de até 160 quilômetros por carga, tornando-o viável para o uso comercial diário. O foco da empresa são entregadores e comerciantes de baixa renda, para quem o veículo serve como ferramenta de trabalho devido ao custo operacional reduzido e manutenção simplificada. O preço inicial divulgado em 2022 era de US$ 3.500.
A viabilidade econômica do modelo é sustentada pela drástica redução nos gastos com energia. Dados do Ministério da Energia da Tanzânia indicam que o custo por quilômetro em veículos elétricos é de 25 xelins, contra 200 xelins em modelos a combustão, representando uma economia de 87,5%. Na prática, proprietários da picape relatam que os gastos diários caíram de US$ 20 em gasolina para US$ 3 em recarga elétrica.
Esse ecossistema de mobilidade limpa é impulsionado por políticas governamentais e infraestrutura energética. Em dezembro de 2024, a Tanzânia aprovou o Marco Político Nacional de Veículos Elétricos, que visa integrar energias renováveis ao transporte e expandir a rede de carregamento. Atualmente, o país possui mais de 4.500 MW de capacidade instalada de eletricidade e 85,5% da população com acesso à rede.
Apesar do avanço, a infraestrutura de recarga permanece como o principal desafio. Com apenas 15 estações públicas, concentradas em Dar es Salaam, a maioria dos usuários depende de tomadas domésticas. O governo planeja elevar esse número para 500 estações até 2030.
A Kaypee Motors divide o mercado com outras iniciativas locais, como a TRÍ Tanzania, focada em triciclos; a E-Motion, que realiza retrofit de veículos de safári em Arusha; a SPIRO, que implementou a troca de baterias em 2025; e a DOW ELEF AUTO EV, inaugurada em março de 2026.
O interesse pela picape artesanal de Masoud ultrapassou as fronteiras tanzanianas, atraindo a atenção do presidente do Quênia, William Ruto, e de representantes do Reino de Eswatini. O cenário regional é de rápida transformação, evidenciado por países como a Etiópia, que baniu a importação de veículos a combustão em 2024 e já opera com mais de 120 mil veículos elétricos.