Teerã organiza cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei com previsão de recorde de público na capital
Teerã inicia neste sábado as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, morto aos 86 anos em ataques de Estados Unidos e Israel. A programação inclui três dias de luto oficial na capital e cortejos por cidades do Iraque, com sepultamento em Mashhad no dia 9 de julho
Teerã se prepara para realizar, a partir deste sábado (4), as cerimônias fúnebres do aiatolá Ali Khamenei, que governou o Irã por 37 anos. O prefeito interino da capital, Alireza Zakai, afirmou que o evento deve representar a maior reunião já registrada na história da cidade. A programação pública, que inclui três dias de luto oficial, causará a paralisação de empresas e atividades na capital para receber visitantes de todo o país.
O funeral havia sido planejado para o início de março, mas foi adiado em razão do conflito no Oriente Médio. A definição das datas ocorreu somente após a implementação de um cessar-fogo frágil entre Teerã e Washington. O líder supremo morreu aos 86 anos, vítima de ataques com mísseis realizados por Estados Unidos e Israel em 28 de fevereiro contra seu complexo de trabalho e residência. A ofensiva deu início à guerra na região e resultou na morte de familiares de Khamenei, entre eles dois netos e uma filha. Imagens de satélite confirmam a destruição do local, embora não haja clareza sobre a recuperação dos corpos.
O cronograma de despedida se estende por seis dias, com o objetivo de promover a unidade nacional entre diferentes grupos religiosos, sociais e políticos, conforme detalhado por Ali-Akbar Purdjamschidian, chefe do comitê organizador. No dia 8 de julho, o cortejo fúnebre passará por cidades sagradas do Iraque, como Karbala e Najaf, em um movimento para projetar a influência regional iraniana. O sepultamento ocorrerá em 9 de julho em Mashhad, cidade natal do aiatolá, no nordeste do país.
A trajetória de Khamenei foi marcada por uma gestão centralizadora e intervenções em quase todas as áreas do governo, diferenciando-se do governo de Ruhollah Khomeini após a Revolução de 1979. Esse modelo de microgestão, somado à má administração econômica, corrupção e sanções nucleares, elevou as tensões externas e o descontentamento interno. A recusa em ceder a reformistas ou críticos do regime aprofundou o abismo entre o sistema político e a sociedade, resultando em ondas de protestos reprimidas com violência, como o movimento verde em 2009, as manifestações "Mulher, Vida, Liberdade" em 2022 e os atos nacionais entre o fim de 2025 e o início de 2026.
O cenário de guerra agravou a crise social, especialmente entre os jovens, devido à perda de milhares de empregos após a destruição de polos siderúrgicos e petroquímicos. Para parte da população, o conflito reforçou a percepção de isolamento e a impossibilidade de contar com apoio externo.
No campo diplomático, a política externa de Khamenei mantém continuidade, evidenciada pela prioridade dada à frente do Líbano nas negociações com os Estados Unidos. O Hezbollah, especificamente por meio da Força Quds, estreitou a dependência política e militar com Teerã. Atualmente, o Irã discute um acordo de 14 pontos com Washington, que inclui a exigência de não interferência dos americanos em assuntos internos iranianos — ponto inédito em negociações anteriores, como no acordo nuclear de 2015 ou após a Guerra Irã-Iraque. Apesar do potencial avanço, persistem divisões internas na liderança iraniana, especialmente na Guarda Revolucionária, sobre a viabilidade das negociações.