Terremotos atingem a Venezuela e causam danos em um terço das estruturas de Catia La Mar
Dois terremotos atingiram Catia La Mar, na Venezuela, danificando cerca de um terço das 30 mil estruturas da cidade e colapsando grande parte do Urbanismo Hugo Chávez. A presidente interina, Delcy Rodriguez, determinou a criação de uma comissão de exames estruturais e a instalação de acampamentos para desabrigados. Engenheiros voluntários avaliam a violação de protocolos de construção nas edificações
Dois terremotos consecutivos devastaram a região de Catia La Mar, no estado de La Guaira, na Venezuela, tornando o complexo habitacional Urbanismo Hugo Chávez o epicentro da tragédia. A área foi a mais atingida pelos tremores, com imagens de satélite analisadas pelo laboratório AI for Good da Microsoft indicando que cerca de um terço das quase 30 mil estruturas da cidade sofreram danos. No conjunto habitacional, grande parte dos mais de 190 prédios desmoronou ou apresenta rachaduras profundas que expõem a estrutura interna.
O complexo, iniciado pouco antes das eleições de 2012 sob a gestão de Hugo Chávez e continuado por Nicolás Maduro, visava expandir a moradia popular através de unidades baratas. As obras foram executadas rapidamente por órgãos estatais e empreiteiras da China, Turquia e Belarus, sob supervisão militar e com baixa transparência. A suspeita de engenheiros é que a negligência, a inobservância de códigos de construção e licenciamentos precários tenham agravado a perda de vidas.
A instabilidade geológica de La Guaira, caracterizada por um solo composto de areia solta, cascalho e detritos, potencializa a intensidade das vibrações sísmicas. Essa condição, somada à localização entre montanhas e o mar, torna o terreno propenso à liquefação durante tremores, elevando o risco para qualquer edificação. Além disso, embora a Venezuela tenha atualizado suas normas de construção após um terremoto em 1967, a adesão a essas regras em prédios antigos e novos permanece incerta.
O colapso econômico iniciado em 2013 resultou na perda de expertise técnica em engenharia no país, enquanto projetos sociais acelerados ignoraram protocolos de segurança. A falta de rigor em obras públicas teria incentivado a iniciativa privada a reduzir custos, resultando no desabamento de diversos empreendimentos privados, tanto novos quanto antigos. Relatórios independentes já haviam alertado anteriormente sobre infiltrações, rachaduras e a construção de prédios em áreas de risco geológico.
Diante do cenário, a presidente interina, Delcy Rodriguez, anunciou a criação de uma comissão para examinar as estruturas danificadas e a instalação de acampamentos temporários para os desabrigados, prometendo o planejamento de novas moradias em curto prazo. No entanto, a gestão ainda não iniciou as avaliações técnicas nem aceitou ofertas de auxílio de universidades e profissionais da área.
Enquanto socorristas buscam sobreviventes nos escombros, engenheiros voluntários coordenados por Glennys Gonzalez realizam avaliações iniciais que sugerem a violação de protocolos básicos de construção. O arquiteto e urbanista Enrique Larrañaga, da Universidade Simón Bolívar, critica a lentidão governamental no acesso a informações e recursos técnicos para mitigar os riscos em edifícios que permanecem de pé.