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Trump manifesta interesse em tomar posse de estoque de urânio enriquecido no Irã

12 de Maio de 2026 às 09:14

Os Estados Unidos e o Irã divergem sobre a recuperação de mais de 440 quilos de urânio enriquecido após bombardeios americanos em 2025. Enquanto Donald Trump manifestou interesse no material, Teerã estuda a diluição do estoque ou a transferência para a Rússia. A AIEA indica que a maior parte do urânio estaria no complexo de Isfahan

Trump manifesta interesse em tomar posse de estoque de urânio enriquecido no Irã
Maxar Technologies/AFP via DW

A insistência do Irã no enriquecimento de urânio, motor de conflitos diplomáticos e militares por décadas, resultou em sanções econômicas que causaram prejuízos estimados em 3,5 trilhões de dólares. Atualmente, o país detém mais de 440 quilos de urânio enriquecido a 60%, volume que excede as necessidades civis e que poderia ser elevado a 90% em curto prazo, tornando-se apto para a produção de armamentos nucleares.

Esse estoque tornou-se o centro de uma disputa após bombardeios dos Estados Unidos, em junho de 2025, contra as instalações de Isfahan, Natanz e Fordo. Donald Trump afirma ter destruído o programa nuclear iraniano na ocasião, referindo-se ao material restante como "poeira nuclear". O presidente americano manifestou a intenção de tomar posse desse estoque, embora apresente versões divergentes sobre a operação: em um momento, sugeriu o uso de escavadeiras para recuperar o material sob escombros mediante um acordo de paz; em outro, mencionou a necessidade de deslocar tropas ao Irã para a retirada. O primeiro-ministro de Israel também confirmou ter sido informado por Trump sobre o interesse em entrar no território iraniano para remover o urânio.

Do lado de Teerã, o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, declarou em março que o material permanece soterrado após os ataques do ano anterior e que não existem planos para sua recuperação. No entanto, Araghchi admitiu a possibilidade de diluir o urânio como parte de um eventual acordo com Washington. Informações recentes indicam que o governo iraniano estuda a diluição de parte do estoque e a transferência do restante para uma terceira nação, proposta que recebeu apoio de Vladimir Putin, que colocou a Rússia à disposição para armazenar o material.

A localização exata do urânio é alvo de divergências. Rafael Grossi, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), afirmou no fim de abril de 2026 que a maior parte do material estaria no complexo de Isfahan. Grossi detalhou que 18 contêineres azuis, com cerca de 200 quilos de urânio, foram levados para um túnel no Centro de Tecnologia Nuclear de Isfahan em 9 de junho de 2025, quatro dias antes do início de uma guerra que durou 12 dias. Outras análises sugerem que o estoque possa estar em Fordo ou na usina de Bushehr. O Irã condicionou qualquer recuperação do material à supervisão da AIEA.

Além dos obstáculos técnicos, a remoção do urânio envolve riscos de segurança. John Bolton, ex-conselheiro de segurança nacional dos EUA, comparou a situação ao desmantelamento do programa nuclear da Líbia nos anos 2000, ressaltando que aquele processo ocorreu em um ambiente permissivo, ao contrário do cenário atual de conflito. Bolton argumentou que, embora um processo similar pudesse ser aplicado ao Irã, ele demandaria mais tempo devido ao estágio avançado do programa. Para o ex-embaixador, a neutralização definitiva da capacidade nuclear iraniana exigiria a remoção do regime dos aiatolás e da Guarda Revolucionária.

A estrutura política do Irã foi impactada pelo assassinato de Ali Khamenei em 28 de fevereiro, embora Trump não tenha sinalizado se buscará a mudança do regime. Bolton avalia que, apesar de possíveis concessões temporárias e a implementação de restrições ao programa, a capacidade fundamental do Irã de desenvolver armas nucleares permaneceria intacta caso não houvesse uma alteração governamental.

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