Política

Comissão conclui que Juscelino Kubitschek foi vítima de atentado político da ditadura militar em 1976

30 de Maio de 2026 às 08:14

A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos aprovou relatório que conclui que Juscelino Kubitschek morreu em atentado da ditadura militar em 1976. O documento refuta a tese de acidente automobilístico e aponta 37 fraudes na apuração do óbito. A comissão buscará a retificação da certidão de morte do ex-presidente

Comissão conclui que Juscelino Kubitschek foi vítima de atentado político da ditadura militar em 1976
Paola Patriarca/ g1

A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) aprovou, nesta sexta-feira (29), um relatório que conclui que o ex-presidente Juscelino Kubitschek foi vítima de um atentado político perpetrado pela ditadura militar em 1976. O documento, aprovado por seis votos favoráveis e uma abstenção, refuta a tese oficial de que a morte teria ocorrido em um acidente automobilístico na Via Dutra, entre São Paulo e Rio de Janeiro.

A relatora do caso, a professora Maria Cecília Adão, apresentou as conclusões em coletiva na sede da Procuradoria Regional da República da 3ª Região, em São Paulo. De acordo com a relatora, a viagem de carro teria sido motivada por um encontro com emissários do então presidente Ernesto Geisel, reunião que teria servido como isca para atrair JK ao local do crime. Adão destacou ainda que o motorista do ex-presidente notou irregularidades no veículo antes do início do trajeto.

O relatório detalha 37 fraudes na apuração do óbito. Entre as evidências, a comissão aponta que militares assumiram o controle da área cerca de 20 minutos após o ocorrido, permitindo a adulteração de provas. Houve manipulação de testemunhas, com a exclusão de relatos que negavam a colisão, e a destruição deliberada de evidências, incluindo o desmantelamento do veículo e ameaças à família. A relatora apresentou registros fotográficos que demonstram que a lanterna traseira do carro estava intacta logo após a morte, mas apresentava avarias quando o veículo chegou ao pátio.

A investigação técnica revelou que as marcas de frenagem eram incompatíveis com o ônibus envolvido e que a dinâmica da batida divergia das versões oficiais. A pista não foi isolada e os veículos foram removidos sem a preservação de suas posições originais. A cadeia de custódia dos corpos de JK e de seu motorista também foi desrespeitada, sem registros de quem realizou o transporte para o Instituto Médico-Legal (IML) do Rio de Janeiro. Sobre este órgão, a relatora informou que os peritos envolvidos no caso possuíam histórico de fraudes em outras mortes durante a ditadura.

Outras inconsistências graves foram listadas, como a alteração do horário da morte — laudos indicam que o ex-presidente faleceu às 20h50, três horas após o acidente — e a ausência de exames toxicológicos para investigar envenenamento. O relatório menciona ainda que o diário de JK foi retirado do carro e que um médico teria feito cópias do material para pressionar a família.

O documento cita que o próprio Juscelino Kubitschek teria relatado a jornalistas tentativas de assassinato contra ele. Além disso, foi registrada uma notícia publicada três dias antes do fato prevendo a morte do ex-presidente em um acidente na mesma rodovia. Com base nas falhas graves dos laudos oficiais, classificados como imprestáveis por laudo do Ministério Público, a CEMDP buscará a retificação da certidão de óbito de JK, fundamentada na Resolução 601/2024 do Conselho Nacional de Justiça.

Com informações de G1

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