Donald Trump manifesta apoio ao candidato Abelardo De La Espriella nas eleições da Colômbia
Donald Trump adotou a estratégia de interferência pública em eleições estrangeiras, apoiando candidatos de direita na Colômbia, Argentina, Honduras, Japão e Polônia. A abordagem obteve resultados variados, com derrotas de aliados na Hungria e no Canadá, além de tensões diplomáticas e sanções contra o Brasil. A política externa atual prioriza a lealdade ideológica e o combate a cartéis de drogas no hemisfério ocidental
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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, consolidou uma estratégia de interferência direta e pública em pleitos estrangeiros, rompendo com a tradição diplomática de neutralidade ou de operações discretas de inteligência. O caso mais recente ocorreu na Colômbia, onde Trump manifestou apoio "completo e total" ao candidato de direita Abelardo De La Espriella, apelidado por ele de "El Tigre", que disputará o segundo turno contra Iván Cepeda, do partido Pacto Histórico. Enquanto De La Espriella classificou o gesto como um "apoio decisivo", Cepeda denunciou a postura como intervencionista e exigiu respeito à soberania colombiana.
Essa abordagem, marcada pelo uso de redes sociais para a mobilização de votos e alinhamentos ideológicos, já foi replicada em diversos países. Na Argentina, Trump condicionou a generosidade do auxílio financeiro americano à vitória de Javier Milei, que venceu as eleições legislativas no ano passado. Em Honduras, o presidente americano apoiou Nasry Asfura, sugerindo a interrupção de recursos ao país em caso de derrota do conservador, além de questionar os resultados da votação sem apresentar provas. No Japão, Trump concedeu apoio total à coalizão da primeira-ministra Sanae Takaichi, que obteve uma vitória histórica em fevereiro. Na Polônia, a secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, também solicitou abertamente votos para o candidato Karol Nawrocki, posteriormente eleito.
Contudo, a estratégia de influência nem sempre produz os resultados esperados. Na Hungria, apesar do apoio explícito de Trump e da visita do vice-presidente JD Vance a Budapeste, o aliado Viktor Orbán foi derrotado por Péter Magyar. No Canadá, a interferência americana foi contraproducente; provocações e a sugestão de que o país fosse anexado como o 51º estado dos EUA estimularam o sentimento nacionalista, favorecendo a vitória do primeiro-ministro liberal Mark Carney sobre o candidato conservador Pierre Poilievre.
No Brasil, a tentativa de influência de Trump tem gerado reações adversas. No ano passado, o governo americano impôs tarifas a produtos brasileiros e sanções a autoridades, incluindo restrições financeiras ao ministro Alexandre de Moraes, sob a justificativa de defender o ex-presidente Jair Bolsonaro. Tais medidas, no entanto, coincidiram com a condenação de Bolsonaro pelo STF a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado. A postura de defesa da soberania nacional adotada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em resposta a essas pressões teria, inclusive, ampliado seu apoio interno.
Atualmente, o cenário brasileiro é marcado por movimentações contrastantes. De um lado, o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência, visitou Washington, data próxima ao anúncio de que as facções PCC e Comando Vermelho seriam classificadas como organizações terroristas pelos EUA e à ameaça de novas tarifas contra o Brasil. De outro, o presidente Lula foi recebido por Trump na Casa Branca há menos de um mês, sinalizando uma tentativa de aproximação após tensões anteriores.
A política externa dos Estados Unidos em relação ao Brasil reflete uma disputa interna na Casa Branca entre uma ala pragmática e outra ideológica, liderada pelo secretário de Estado, Marco Rubio, que define o Brasil como não amigável aos interesses americanos. Diferente de gestões anteriores, como a de George H. W. Bush na Nicarágua ou a de Bill Clinton na Rússia — que focavam em interesses estratégicos e geopolíticos —, a atuação de Trump é vista como priorizando a lealdade ideológica de líderes de direita, embora no hemisfério ocidental essa agenda também busque alinhar países em uma abordagem militarizada contra cartéis de drogas.