Saúde

Ameba que ataca o cérebro expande sua presença geográfica devido ao aquecimento das águas

08 de Julho de 2026 às 15:13

A ameba Naegleria fowleri apresenta expansão geográfica e detecção em locais atípicos, com casos fatais recentes em Taiwan, Estados Unidos e Brasil. O aquecimento das águas favorece a migração do microrganismo, que ataca o tecido cerebral via cavidades nasais. O CDC recomenda o uso de água esterilizada para higienização nasal e clipes nasais ao nadar em águas doces aquecidas

Ameba que ataca o cérebro expande sua presença geográfica devido ao aquecimento das águas
Bruno da Rocha-Azevedo, Herbert B. Tanowitz e Francine Marciano-Cabral / Interdisciplinary Perspectives on Infectious Diseases

A expansão geográfica e a detecção crescente da *Naegleria fowleri*, ameba conhecida por causar a meningoencefalite amebiana primária, têm alertado a comunidade científica global. O organismo, que ataca o tecido cerebral ao entrar no corpo pelas narinas, tradicionalmente era associado a lagos, fontes de águas quentes e piscinas abandonadas, mas agora surge em locais atípicos. Casos recentes incluem a morte de um homem em Taiwan, em 2023, após exposição em um local fechado de surfe, e a infecção fatal de uma criança nos Estados Unidos por meio de um tapete de água contaminado.

O aquecimento das águas, impulsionado pelas mudanças climáticas, favorece a atividade da ameba e sua migração para regiões anteriormente frias. Esse fenômeno explica a detecção do microrganismo no norte dos Estados Unidos, como em Minnesota, e a ocorrência do primeiro caso confirmado na Eslováquia no ano passado. Além disso, países do hemisfério norte, como Bélgica e Itália, registraram maior proporção de casos nas últimas duas décadas. No Brasil, a Agência de Vigilância em Saúde do Estado de Rondônia confirmou a morte de uma criança de nove anos por essa infecção em abril.

A vulnerabilidade é maior entre crianças, especialmente em torno dos 12 anos, devido ao hábito de brincar com água quente e a uma possível facilidade da ameba em atravessar a barreira nasal para o cérebro em organismos mais jovens. Um exemplo crítico ocorreu com Jordan, um menino de 11 anos, filho de Steve Smelski, residente da Flórida. Durante férias na Costa Rica, a criança foi exposta a uma fonte natural de águas quentes. O quadro evoluiu de dores de cabeça e vômitos para alucinações e convulsões. O diagnóstico foi dificultado pela semelhança inicial dos sintomas com a meningite, resultando em inchaço cerebral irreversível e morte.

Historicamente, a letalidade da doença é altíssima. Uma análise publicada pelo Journal of Infection and Public Health indica que, entre 1962 e 2023, dos 488 casos relatados mundialmente — concentrados principalmente na Austrália, Paquistão e sul dos Estados Unidos —, cerca de 97% das vítimas morreram. Contudo, dados recentes da revista Communications Medicine sugerem que a mortalidade pode ser menor do que se acreditava. Em um surto com mais de 200 casos no estado de Kerala, na Índia — o maior já registrado no mundo —, mais da metade dos infectados sobreviveu. Esse resultado é atribuído ao diagnóstico precoce, ao maior conhecimento médico e a protocolos de tratamento mais consistentes.

Além de atividades recreativas em águas doces quentes, a ameba pode infectar pessoas via sistemas de irrigação nasal, utilizados para tratar alergias e resfriados, ou em práticas religiosas e holísticas, como o ayurveda. No Texas, uma mulher de 71 anos morreu no ano passado após utilizar água de torneira de um trailer para higienização nasal.

Para mitigar os riscos, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) recomendam o uso exclusivo de água destilada, esterilizada ou fervida e resfriada para a limpeza do nariz. Ao nadar em águas doces aquecidas, a orientação é utilizar clipes nasais ou segurar o nariz ao mergulhar para evitar a entrada de água nas cavidades nasais.

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