Saúde

Casos de hantavirose em navio de cruzeiro provocam alerta internacional e repatriação de passageiros

12 de Maio de 2026 às 06:21

Casos de hantavirose em um cruzeiro que partiu da Argentina para a África levaram à repatriação de passageiros de mais de 20 nacionalidades. O surto envolve a cepa andina, que permite a transmissão entre humanos, mas não há registros dessa variante no Brasil

Casos de hantavirose em navio de cruzeiro provocam alerta internacional e repatriação de passageiros
IOC-Fiocruz

A detecção de casos de hantavirose em um navio de cruzeiro que partiu da Argentina com destino à África gerou alerta internacional, resultando na repatriação de passageiros de mais de 20 nacionalidades. Não houve registro de brasileiros entre os infectados. O surto causou preocupação por ter ocorrido em um ambiente fechado com circulação global de pessoas e por envolver a cepa andina do vírus, que possui a característica excepcional de permitir a transmissão entre seres humanos em situações de contato próximo. No entanto, essa variante específica circula apenas no Chile e na Argentina, sem registros de presença no Brasil.

Diferente do coronavírus, o hantavírus apresenta uma transmissão muito menos eficiente e não possui evidências de potencial pandêmico. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica as infecções por hantavírus como relativamente incomuns globalmente, com estimativas entre 10 mil e 100 mil casos anuais, concentrados principalmente na China, Ásia e em regiões do norte e centro da Europa.

No Brasil, a hantavirose é considerada uma doença endêmica, com circulação contínua principalmente em áreas rurais. Entre 1993 e 2025, o país confirmou 2.429 casos, com 997 óbitos. Em 2026, até o dia 27 de abril, foram registrados sete casos e uma morte. A doença manifesta-se em todas as regiões brasileiras, mas as maiores concentrações estão no Sul, Sudeste e Centro-Oeste. A Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH) foi relatada em 16 Unidades da Federação, incluindo São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Mato Grosso, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Bahia, Maranhão, Rio Grande do Norte, Amazonas, Rondônia e Pará.

A infecção é causada por vírus da família Hantaviridae, transmitidos por roedores silvestres presentes em matas, plantações, celeiros e galpões. O contágio humano ocorre pela inalação de partículas de urina, saliva ou fezes desses animais em locais mal ventilados. Devido a esse ciclo, cerca de 70% dos casos ocorrem em zonas rurais, afetando majoritariamente homens entre 20 e 39 anos, grupo com maior exposição ocupacional na agricultura. Atividades como desmatamento e a ocupação de áreas de mata, especialmente no Cerrado e Mata Atlântica, ampliam o contato com os reservatórios do vírus.

A doença é grave devido à resposta inflamatória intensa que provoca no organismo. Os sintomas iniciais, como febre e dores nas articulações ou cabeça, podem ser confundidos com gripe, dengue ou covid-19. Contudo, o quadro pode evoluir rapidamente para a Síndrome Cardiopulmonar, caracterizada por insuficiência pulmonar, queda de pressão arterial e dificuldade respiratória aguda. A taxa de letalidade média no Brasil é de 46,5%, índice próximo à média mundial de 40%.

O diagnóstico precoce é fundamental para a sobrevivência, mas é dificultado pela subnotificação e pelo acesso precário à saúde em áreas remotas. Atualmente, não existe tratamento antiviral específico; a assistência baseia-se em suporte clínico, monitoramento cardiovascular e respiratório, frequentemente com necessidade de internação em UTI.

Para enfrentar essas barreiras, a Fiocruz e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) desenvolveram, em 2025, um teste rápido que detecta a doença em até 20 minutos com apenas uma gota de sangue. O exame, que já possui registro da Anvisa, identifica anticorpos IgM, inclusive do vírus Andes, e dispensa infraestrutura laboratorial, facilitando a aplicação em áreas rurais. Nos testes, a ferramenta apresentou 94% de sensibilidade e 100% de especificidade. A distribuição dos kits depende agora da demanda do Ministério da Saúde.

Como prevenção, as autoridades sanitárias recomendam evitar o contato com roedores silvestres, eliminar entulhos e lixo que atraiam os animais e armazenar alimentos corretamente. Ao limpar locais fechados ou abandonados, a orientação é umedecer o ambiente antes da higienização para evitar que a poeira contaminada seja dispersada no ar.

Notícias Relacionadas