Saúde

Cerca de 17 milhões de brasileiras atravessam o climatério e enfrentam sintomas da transição hormonal

04 de Julho de 2026 às 06:06

Cerca de 17 milhões de brasileiras estão no climatério, fase de transição hormonal com sintomas como fogachos e insônia. O tratamento mais eficaz é a terapia de reposição hormonal, enquanto o medicamento fezolinetant é indicado para ondas de calor. No SUS, a oferta de hormônios sistêmicos é escassa, estando disponível apenas o estriol em creme vaginal

Cerca de 17 milhões de brasileiras atravessam o climatério, período de transição entre as fases reprodutiva e não reprodutiva. Diferente da menopausa, que marca especificamente a data da última menstruação, o climatério abrange os anos que antecedem e sucedem esse evento, sendo caracterizado pela redução progressiva da atividade dos ovários e da produção de estrogênio e progesterona.

Essa queda hormonal desencadeia sintomas que impactam a qualidade de vida. Embora as ondas de calor, conhecidas como fogachos, sejam os sinais mais reconhecidos, a transição costuma se manifestar inicialmente por alterações no ciclo menstrual. Outras manifestações frequentes incluem suores noturnos, insônia, irritabilidade, ansiedade, oscilações de humor, ressecamento vaginal, dor durante as relações sexuais e quadros urinários, como ardência e infecções recorrentes. Muitas mulheres buscam auxílio médico por insônia ou mudanças emocionais sem associar esses quadros ao climatério.

O diagnóstico é estabelecido prioritariamente por meio da história clínica e dos sintomas relatados pela paciente. A dosagem hormonal isolada possui utilidade limitada, pois os níveis variam significativamente durante a transição, podendo apresentar resultados normais mesmo em mulheres com sintomas acentuados.

Para o alívio desses quadros, a terapia de reposição hormonal é o tratamento mais eficaz quando indicada corretamente. A máxima eficácia ocorre na chamada "janela de oportunidade", que compreende a transição menopausal (quando a mulher ainda menstrua, mas já apresenta sintomas), até dez anos após a menopausa ou, na ausência dessa data, antes dos 60 anos.

A administração pode ocorrer via oral (comprimidos) ou por vias não orais, como adesivos, gel e spray transdérmico. Estas últimas são preferíveis para pacientes com fatores de risco cardiovascular, como diabetes, hipertensão, obesidade, tabagismo ou propensão a trombose, pois evitam a passagem do fármaco pelo fígado. O estrogênio é o hormônio central para o alívio dos sintomas, mas mulheres que mantêm o útero devem associar a progesterona ou progestagênio para a proteção do endométrio, sendo contraindicados, para esse fim, os géis manipulados de progesterona aplicados na pele.

Historicamente, a reposição hormonal foi associada a riscos de doenças cardiovasculares e câncer de mama. Contudo, pesquisas atuais indicam que o aumento do risco de câncer de mama é extremamente reduzido (0,08%) e comparável a fatores como sedentarismo, obesidade ou o consumo diário de um a dois drinques de álcool. Em termos estatísticos, estima-se que, a cada mil mulheres utilizando a terapia convencional por cinco anos, ocorra apenas 0,8 caso adicional da doença em relação a quem não usa hormônios. A indicação do tratamento, portanto, considera a idade, a intensidade dos sintomas, o tempo de menopausa, o estado geral de saúde e os riscos individuais.

No Sistema Único de Saúde (SUS), a oferta de hormônios sistêmicos para sintomas amplos é escassa, estando disponível apenas o estriol em creme vaginal. Esta medicação é voltada para a síndrome geniturinária da menopausa — tratando ressecamento e sintomas urinários —, mas não atua sobre fogachos ou alterações do sono e humor.

Como alternativa não hormonal, a Anvisa aprovou o fezolinetant (comercializado como Veoza), indicado especificamente para fogachos. O medicamento, em comprimido diário, atua nos mecanismos cerebrais responsáveis pelas ondas de calor, com estudos que demonstram redução de 60% desses sintomas. A opção é especialmente benéfica para mulheres impossibilitadas de usar hormônios, como pacientes tratadas por câncer de mama.

Quanto à duração do tratamento, não há um prazo máximo obrigatório para a interrupção. A continuidade depende da manutenção dos benefícios e da ausência de efeitos adversos, podendo-se reduzir as doses com o passar dos anos. Já os fitoterápicos não são recomendados por sociedades médicas brasileiras e norte-americanas, devido à insuficiência de evidências científicas que comprovem benefícios consistentes.

A menopausa é compreendida como uma etapa natural da vida. Além da reposição hormonal, a manutenção da qualidade de vida nesse período depende de pilares como alimentação equilibrada, atividade física, saúde mental e convívio social.

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