Cirurgia complexa em São Paulo restaura força no braço de médico com lesão medular
O médico Lucas Hoffmann perdeu os movimentos das pernas e braços devido a sangramentos causados por um cavernoma na medula espinhal. Após nova cirurgia em São Paulo, a malformação foi removida e a força do braço esquerdo foi restaurada. O paciente segue em reabilitação
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Um sangramento provocado por um cavernoma na medula espinhal resultou na perda dos movimentos das pernas do médico Lucas Hoffmann. A condição, caracterizada por malformações nos vasos sanguíneos que criam emaranhados semelhantes a cavernas, aumenta o risco de hemorragias. Embora a patologia afete cerca de uma em cada 200 pessoas no cérebro, a ocorrência na medula espinhal é rara, atingindo apenas 2% dos casos.
O quadro de Hoffmann manifestou-se no final de 2025, durante um plantão médico, com dores intensas na região cervical e dificuldade de locomoção. O sangramento lesionou a medula espinhal, feixe de nervos responsável por transmitir comandos do cérebro aos músculos e vice-versa, interrompendo a comunicação nervosa e eliminando a sensibilidade do corpo até a altura do umbigo.
Após seis meses de fisioterapia, o paciente havia recuperado a sensibilidade até o umbigo e sentia a região da coxa, com previsão de retorno aos atendimentos na rede pública do Paraná em agosto. Contudo, em abril deste ano, um novo sangramento ocorreu na vértebra C4, dois níveis acima da lesão anterior. O episódio causou a perda de força e movimentos nos braços, elevando o risco de paralisia total.
Para o tratamento, Hoffmann foi transferido para São Paulo, onde foi submetido a uma nova intervenção cirúrgica conduzida pelo neurocirurgião Francisco Sampaio, do Hospital Sírio-Libanês e da Rede D'Or Star. Como a região já havia passado por uma cirurgia de emergência anterior, na qual não foi possível remover todo o cavernoma, o novo procedimento foi mais complexo. A equipe utilizou a técnica de monitoramento neurológico intraoperatório, empregando 180 eletrodos para mapear cada milímetro da medula e preservar as funções motoras do braço esquerdo. A cirurgia, com duração de oito horas, removeu completamente a malformação e restaurou a força total do membro superior.
A recuperação de lesões medulares é considerada incerta, pois a medula possui capacidade limitada de regeneração e não existem medicamentos ou intervenções que restabeleçam conexões interrompidas. O neurocirurgião Jorge Pagura, professor emérito da Universidade Federal do ABC, indica que a reabilitação pode proporcionar algum grau de melhora em até 30% dos pacientes, dependendo da gravidade da lesão e da agilidade da cirurgia. No caso de Hoffmann, a equipe médica identificou chances de recuperação na segunda cirurgia, embora sem garantias definitivas.
No campo da pesquisa, a substância polilaminina, desenvolvida pelo laboratório Cristália e liderada por Tatiana Sampaio, é estudada para a regeneração de lesões medulares agudas. O projeto possui um pré-print, mas ainda não foi publicado em revista científica revisada por pares. A Anvisa autorizou o início dos testes em humanos (Fase 1), que aguardam análise do comitê de ética para começar. Para a comercialização, o fármaco precisará passar pelas fases 2 e 3, avaliando eficácia e doses, antes do registro sanitário.
Atualmente, a polilaminina é disponibilizada via uso compassivo para pacientes sem outras opções terapêuticas. O laboratório informou que cerca de 60 pessoas receberam a substância até o início do ano, porém, não houve a divulgação pública de novos casos de recuperação de movimentos após o primeiro paciente relatado no estudo.
Enquanto segue em reabilitação, Lucas Hoffmann utiliza as redes sociais para informar sobre a doença e compartilhar a rotina de pessoa cadeirante, somando 77 mil seguidores.