Devaneio excessivo afeta até 4% dos adultos e pode durar 12 horas por dia
O devaneio excessivo, que afeta de 2% a 4% dos adultos, caracteriza-se por fantasias detalhadas que podem durar até 12 horas diárias. A condição, relacionada a traumas infantis e neurodiversidade, não é reconhecida oficialmente pelo CID ou DSM, mas apresenta resultados positivos com psicoterapia
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O devaneio excessivo, conhecido clinicamente como *maladaptive daydreaming*, é uma condição em que a pessoa passa a maior parte do tempo acordada imersa em fantasias detalhadas, com narrativas e personagens complexos. Enquanto sonhar acordado é uma atividade mental comum — estimada entre 30% e 50% da atividade mental humana e capaz de auxiliar na criatividade e regulação emocional —, o quadro torna-se patológico quando a fantasia domina o indivíduo, resultando em rupturas graves na vida cotidiana.
A condição afeta own estima de 2% a 4% da população adulta. Em casos extremos, as imersões podem durar até 12 horas por dia, com roteiros que se estendem por décadas. Esse comportamento frequentemente se manifesta por meio de gatilhos, como a audição de músicas ou a prática de atividades físicas repetitivas, como caminhar ou lançar bolas. Cerca de 80% dos indivíduos apresentam gestos físicos inconscientes para manter a concentração nos sonhos diurnos.
O impacto social e profissional é significativo, pois a satisfação imediata e sem esforço do mundo interno pode desestimular a busca por conquistas reais. O isolamento social resultante gera um ciclo de vergonha e culpa, onde a fantasia serve como um refúgio para necessidades emocionais não atendidas ou sentimentos de inadequação.
Estudos relacionam o devaneio excessivo a traumas infantis, como negligência e abusos emocionais, funcionando como uma estratégia de sobrevivência para evitar memórias dolorosas. Há também uma forte correlação com a neurodiversidade: em uma pesquisa com 235 adultos com transtorno do espectro autista, 43% relataram a condição, ligando-a à solidão e a dificuldades de regulação emocional. Além disso, a condição apresenta características cognitivas similares ao TDAH, TOC, depressão e ansiedade.
O professor Eli Somer, da Universidade de Haifa, que cunhou o termo, explica que, embora haja sobreposição com outros transtornos, o devaneio excessivo possui uma fenomenologia distinta, focada na absorção dissociativa e no investimento emocional em mundos internos. Somer descreve a condição como uma estratégia de sobrevivência mal adaptada que pode evoluir para um transtorno dissociativo.
Apesar de ainda não ser reconhecida oficialmente pelo Manual Estatístico e de Diagnóstico de Transtornos Mentais nem pela Classificação Internacional de Doenças (CID), a psicoterapia dirigida tem mostrado resultados positivos. O foco do tratamento não é eliminar a imaginação, mas devolver ao paciente o controle e a flexibilidade sobre ela.
Para quem enfrenta a condição, a psicóloga clínica Wanda Fischera recomenda estratégias iniciais como o registro da frequência dos sonhos para substituição por novos hobbies, a prática de meditação *mindfulness* e a identificação de gatilhos, sugerindo a troca de músicas por podcasts ou a redução do tempo de isolamento.