Saúde

Diretrizes médicas dos Estados Unidos e do Brasil priorizam semaglutida e tirzepatida no tratamento da obesidade

16 de Junho de 2026 às 09:23

O American College of Physicians e entidades médicas brasileiras estabeleceram a semaglutida e a tirzepatida como as principais opções farmacológicas para o tratamento da obesidade. As diretrizes recomendam a associação desses medicamentos a mudanças no estilo de vida, com a conduta no Brasil focada no risco cardiovascular do paciente

O American College of Physicians (ACP), entidade que representa os médicos internistas dos Estados Unidos, publicou na revista *Annals of Internal Medicine* novas diretrizes para o tratamento da obesidade. O documento estabelece a semaglutida e a tirzepatida como as primeiras opções farmacológicas, desde que associadas a mudanças no estilo de vida. A recomendação baseia-se na eficácia desses medicamentos, que permitem que cerca de 90% dos pacientes superem a marca de 5% de perda de peso, patamar que anteriormente era difícil de alcançar.

Para adultos com obesidade (IMC igual ou superior a 30), a diretriz americana organiza as opções terapêuticas em uma hierarquia: a combinação de fentermina e topiramato surge como segunda opção, seguida pela liraglutida em terceiro lugar e a associação de naltrexona e bupropiona como quarta alternativa. Já para pacientes com sobrepeso (IMC entre 27 e 30) que apresentem ao menos uma comorbidade — como hipertensão, diabetes tipo 2, apneia do sono, colesterol alterado ou doença cardiovascular —, a indicação inicial permanece sendo a semaglutida ou a tirzepatida, com a liraglutida como segunda escolha.

A urgência de novas condutas é reflexo de dados globais, que apontam que 59% da população mundial convive com sobrepeso ou obesidade. No Brasil, o cenário é ainda mais crítico, com 68% dos adultos apresentando excesso de peso e 31% com obesidade. Apenas em 2021, o índice de massa corporal elevado foi a causa de quase 61 mil mortes prematuras no país.

No contexto nacional, cinco entidades médicas, incluindo a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), publicaram em 2025 uma diretriz conjunta que também prioriza a semaglutida e a tirzepatida. No entanto, a abordagem brasileira difere da americana ao focar no risco cardiovascular do paciente. Através do escore PREVENT, a conduta no Brasil é definida pela probabilidade de o paciente sofrer insuficiência cardíaca, AVC ou infarto.

Existem divergências específicas entre as recomendações. A combinação fentermina-topiramato, segunda linha nos EUA, não consta na lista de aprovados do documento brasileiro. Além disso, a sibutramina é desaconselhada no Brasil para pacientes com alto risco cardiovascular. Essa cautela decorre do estudo clínico SCOUT, que envolveu 10 mil pacientes e demonstrou um risco 16% maior de eventos cardiovasculares graves no grupo que utilizou a droga, levando à sua retirada dos mercados americano e europeu.

A medicina moderna encara a perda de peso como um meio para a saúde, e não como fim estético. Reduções a partir de 3% já impactam positivamente a glicose e os triglicérides. Entre 5% e 10%, observa-se melhora na qualidade de vida, redução de dores articulares e aumento do colesterol HDL. Perdas acima de 10% reduzem o risco de AVC e infarto, além de reverter a gordura hepática. Quando a redução atinge 15% ou mais, há diminuição da mortalidade e possibilidade de remissão do diabetes tipo 2. Por isso, as metas terapêuticas são de 10% de perda para obesidade graus 1 e 2, e 15% ou mais para obesidade grave.

Quanto aos medicamentos líderes, a tirzepatida demonstrou maior eficácia em perda de peso no estudo SURMOUNT-5, com média de 20% em 72 semanas, contra 14% da semaglutida em pessoas com obesidade sem diabetes. A tirzepatida também é o primeiro fármaco aprovado pelo FDA para apneia do sono moderada a grave. Já a semaglutida comprovou, no estudo SELECT de 2023, a redução de 20% em mortes e eventos cardiovasculares em pacientes com obesidade e doença cardiovascular estabelecida. Recentemente, o estudo SURPASS-CVOT indicou que a tirzepatida apresentou mortalidade geral 16% menor em pacientes de alto risco com diabetes, mantendo a segurança cardíaca.

A escolha entre as drogas depende de custo, eficácia desejada, histórico do paciente e preferência individual. A semaglutida costuma ser mais acessível, especialmente com a proximidade da perda de sua patente. Ambos os documentos, americano e brasileiro, alertam para a necessidade de monitorar a perda de massa muscular e óssea, além de deficiências nutricionais, recomendando atenção à ingestão de proteínas, especialmente em idosos.

A obesidade é classificada como uma doença crônica, influenciada por fatores genéticos e ambientais, exigindo tratamento de longo prazo. A interrupção da medicação pode levar ao retorno do quadro clínico. No Brasil, contudo, há um obstáculo estrutural: a diretriz nacional reconhece que o Sistema Único de Saúde (SUS) não oferece medicamentos para o tratamento da obesidade, sugerindo a priorização de grupos com maior risco cardiovascular.

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