Estudo indica que incidência de câncer de pâncreas em pessoas com até 49 anos deve crescer
Brasil estima 10.980 novos casos anuais de câncer de pâncreas para o triênio 2023-2025, com projeção de aumento na incidência e mortalidade em pessoas com até 49 anos. Apenas 20% dos diagnósticos permitem cirurgia curativa, enquanto fatores como obesidade, tabagismo e álcool elevam os riscos da doença
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O câncer de pâncreas apresenta um cenário epidemiológico preocupante no Brasil, com a estimativa de 10.980 novos casos anuais para o triênio 2023-2025. Embora a incidência seja menor do que a de tumores de mama, pulmão e colorretal, a doença se destaca pela alta letalidade, impulsionada principalmente pelo diagnóstico tardio. Um estudo realizado por pesquisadores brasileiros e canadenses, com base em dados do Global Burden of Diseases, Injuries, and Risk Factors Study, que abrange 204 países e territórios, indica que a mortalidade e a incidência da enfermidade em pessoas com até 49 anos devem crescer nas próximas décadas, alterando o perfil tradicional dos pacientes, geralmente diagnosticados após os 55 anos.
A complexidade do tratamento reside na detecção precoce. Cerca de 80% dos diagnósticos não permitem intervenção cirúrgica curativa. A cirurgia é viável em apenas 20% dos casos, quando o tumor está restrito ao pâncreas, sem metástases ou invasão de estruturas vasculares essenciais, como a veia porta e a artéria mesentérica. Quando esses vasos são comprometidos, o tumor é classificado como irressecável, a menos que seja possível realizar a reconstrução do vaso com próteses ou emendas. Mesmo no grupo elegível para a cirurgia, apenas 15% dos pacientes sobrevivem por mais de cinco anos.
A ausência de sintomas claros dificulta a identificação da doença. Tumores localizados na cabeça do pâncreas podem causar icterícia — caracterizada por urina escura, olhos amarelados e alteração nas fezes —, o que constitui uma emergência médica. Já lesões no corpo e na cauda do órgão manifestam sinais vagos, como emagrecimento sem causa aparente, inapetência, mal-estar interpretado como má digestão ou dores nas costas, frequentemente confundidas com problemas de coluna. Devido à agressividade do câncer, um atraso de três meses no diagnóstico pode inviabilizar a janela de tratamento.
A dificuldade de visualização ocorre porque 90% dos casos originam-se de Neoplasias Intraepiteliais Pancreáticas (PanIN), alterações microscópicas nas células dos ductos do órgão que não formam nódulos visíveis em ressonâncias ou tomografias, sendo detectáveis apenas por patologistas via biópsia. Os outros 10% dos casos surgem de cistos, especificamente as Neoplasias Mucinosas Papilares Intraductais (IPMN). Estas são visíveis em exames de imagem e representam a única lesão prevenível, podendo ser monitoradas e removidas.
O monitoramento de cistos segue o Consenso Internacional de Fukuoka. Lesões no ducto principal com dilatação superior a 1 cm são consideradas de alto risco, enquanto dilatações entre 0,5 cm e 1 cm são classificadas como preocupantes. Nos ductos secundários, o alerta ocorre se o cisto tiver mais de 3 cm, contiver componente sólido ou crescer mais de 5 mm ao ano. O critério fundamental para a preocupação médica é o crescimento da lesão em um intervalo de seis meses.
Quanto aos fatores de risco, o componente genético está presente em 10% dos casos. O rastreamento semestral é recomendado para quem possui dois ou mais parentes de primeiro grau diagnosticados. Entre os fatores ambientais, destacam-se a obesidade, o tabagismo e o consumo de álcool. O abuso prolongado de bebidas alcoólicas pode causar pancreatite crônica — condição silenciosa que gera fibrose do órgão —, elevando em até 20 vezes a chance de desenvolver o câncer. A literatura médica também aponta a influência de dietas ricas em ultraprocessados, embora sem validação científica definitiva.
No campo terapêutico, a mortalidade cirúrgica, que era de 50% na década de 1940, caiu para menos de 1% em centros de referência. A cirurgia atual é combinada a reconstruções vasculares e ao uso indispensável de quimioterapia, seja antes ou depois da operação. Com a técnica cirúrgica atingindo seu limite, a inovação agora concentra-se na oncologia clínica, com pesquisas internacionais em terapias-alvo, imunoterapia e vacinas terapêuticas.