Saúde

FDA remove advertências sobre câncer e demência de bulas de produtos hormonais para menopausa

22 de Junho de 2026 às 06:06

A medicina atual prioriza a individualização da terapia hormonal na menopausa com base no perfil de risco da paciente. Em novembro de 2025, a FDA removeu advertências sobre demência, câncer de mama e riscos cardiovasculares de diversas bulas. Sociedades médicas brasileiras alertam contra a modulação hormonal e o uso de pellets para fins estéticos

A medicina passou por uma mudança de paradigma no tratamento da menopausa, deixando de focar apenas no controle de ondas de calor para encarar esse período como uma fase com impactos profundos na saúde metabólica, emocional, sexual e física da mulher. A transformação central não ocorreu pela descoberta de novas substâncias, mas por meio de uma reavaliação da terapia hormonal, que agora prioriza a individualização do tratamento com base no perfil de risco de cada paciente.

Essa nova abordagem surge após décadas de cautela extrema, desencadeadas por um estudo americano de 2002, o Women's Health Initiative (WHI). Na ocasião, o acompanhamento de mais de 16 mil mulheres associou a terapia hormonal ao aumento de riscos de trombose, AVC, infarto e câncer de mama. No entanto, a análise posterior desses dados revelou que as conclusões foram extrapoladas: a pesquisa focou em mulheres com média de 63 anos, que já haviam passado da menopausa há mais de uma década, e utilizou apenas um tipo específico de progesterona e estrogênio via oral.

Com o tempo, novas evidências demonstraram que os riscos variam conforme a dose, a via de administração, a idade e o momento em que o tratamento é iniciado. Em 2024, uma análise com mais de 10 milhões de americanas acima de 65 anos indicou redução de mortalidade e de certos desfechos cardiovasculares em formulações específicas. No mesmo ano, um estudo publicado pelo BMJ não encontrou aumento da mortalidade em mulheres usuárias de terapia hormonal durante a menopausa.

Essas evidências levaram a mudanças regulatórias significativas. Em novembro de 2025, a FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, removeu das bulas de diversos produtos hormonais as advertências sobre demência, câncer de mama e risco cardiovascular. Apesar disso, a terapia mantém contraindicações rigorosas para pacientes com AVC prévio, tromboembolismo ativo, algumas doenças hepáticas e câncer de mama.

Atualmente, a decisão clínica considera fatores como histórico familiar, preferências da paciente, risco cardiovascular e tempo decorrido desde a menopausa. O reconhecimento de que a queda do estrogênio afeta a memória, a cognição, o sono, a saúde óssea, a função cardiovascular e a integridade dos tecidos urinários e vaginais ampliou as queixas nos consultórios, que agora incluem insônia, perda de libido e dificuldades de concentração.

Houve também uma evolução na administração dos medicamentos. Géis e adesivos (vias transdérmicas) tornaram-se preferíveis por evitarem a passagem inicial pelo fígado, reduzindo riscos tromboembólicos e cardiovasculares. Para mulheres que preservam o útero, a progesterona permanece essencial para proteger o endométrio contra o câncer.

Paralelamente a esse avanço científico, surgiu a disseminação de terapias sem respaldo técnico, vendidas como soluções para emagrecimento, longevidade, ganho de massa muscular e rejuvenescimento. Práticas como a "modulação hormonal", o uso de implantes conhecidos como pellets e hormônios "bioidênticos" são criticadas por sociedades médicas brasileiras. O alerta é que a terapia hormonal deve visar a melhora da qualidade de vida e dos sintomas, e não a promoção de resultados estéticos ou de performance.

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