Saúde

Federação Internacional do Diabetes reconhece formalmente o diabetes tipo 5 associado à desnutrição infantil

10 de Junho de 2026 às 18:22

A Federação Internacional do Diabetes reconheceu formalmente, em abril de 2025, o diabetes tipo 5, condição ligada à desnutrição crônica na infância e adolescência. A patologia, comum na África subsaariana e Ásia, apresenta riscos de hipoglicemia grave com tratamentos convencionais e ainda não é validada pela Organização Mundial da Saúde

Federação Internacional do Diabetes reconhece formalmente o diabetes tipo 5 associado à desnutrição infantil
Serviço Mundial da BBC

A classificação do diabetes tipo 5, condição associada a longos períodos de desnutrição na infância e adolescência, tornou-se centro de um debate médico global sobre a precisão dos diagnósticos e a segurança dos tratamentos. A Federação Internacional do Diabetes (FID), que representa 251 associações nacionais, reconheceu formalmente a condição em abril de 2025, fundamentada em um estudo publicado na revista The Lancet com a colaboração de mais de 50 cientistas.

Diferente do tipo 1, que é autoimune e interrompe a produção de insulina, ou do tipo 2, caracterizado pela resistência à substância, o tipo 5 estaria ligado à subnutrição crônica, que prejudica o desenvolvimento do pâncreas. Nesses casos, o órgão ainda produz insulina, porém em quantidade insuficiente, e o paciente pode apresentar uma sensibilidade incomum à substância. Essa característica torna o tratamento padrão perigoso, podendo provocar hipoglicemia grave — a redução drástica dos níveis de açúcar no sangue —, o que pode ser fatal.

A confusão diagnóstica é comum porque a condição afeta predominantemente jovens com baixo peso e níveis elevados de glicose, sintomas que mimetizam o diabetes tipo 1. Noella Mukumbi, de 30 anos, da República Democrática do Congo, viveu essa experiência. Diagnosticada com tipo 1 em 2023, a cabeleireira passou a sofrer tonturas e perda de equilíbrio após iniciar as injeções diárias de insulina, chegando a desmaiar. Após a revisão do diagnóstico para tipo 5, a dose de insulina foi reduzida e substituída pela metformina, medicamento comum no tipo 2, resultando na recuperação de seu peso e melhora da visão.

A incidência é particularmente alta na África subsaariana e em partes da Ásia, regiões com alta prevalência de desnutrição infantil. Contudo, dados de 2023 publicados na revista Diabetes Care indicam o crescimento do "diabetes dos magros" nos Estados Unidos, analisando mais de 2,6 milhões de adultos não obesos. No Reino Unido, casos como o de Sophia Sharer, de 26 anos, ilustram a lacuna diagnóstica. Com histórico de baixo peso severo na juventude, Sharer apresentou sintomas de fome excessiva e tremores, mas, devido à ausência de exames confirmatórios no país, foi tratada para diabetes tipo 2 por falta de alternativa.

Apesar do reconhecimento da FID, a Organização Mundial da Saúde (OMS) ainda não valida o tipo 5 como uma categoria separada. A OMS já havia identificado a "diabetes relacionada à desnutrição" em 1985, mas removeu a classificação 12 anos depois por falta de consenso sobre a distinção em relação ao tipo 2. Revisões feitas em 1999 e 2006 mantiveram a posição de que não havia evidências científicas suficientes, embora o órgão admita que a classificação atual não abrange todas as características clínicas dos pacientes.

A divergência persiste entre especialistas. V. Mohan, presidente do Centro de Especialidades em Diabetes do Dr. Mohan, na Índia, questiona a existência da doença como condição independente, sugerindo que possa ser uma variação do tipo 1 ou do tipo 2 em pessoas abaixo do peso, apontando a ausência de um marcador biológico para o diagnóstico. Atualmente, a identificação depende da análise de padrões: histórico de desnutrição, baixo peso e reações atípicas à insulina.

Meredith Hawkins, diretora do Instituto Global de Diabetes da Faculdade de Medicina Albert Einstein, alerta que erros de classificação são generalizados e levam a mortes por tratamentos inadequados. Para mitigar isso, a FID criou um grupo de trabalho para estabelecer critérios formais de diagnóstico e condutas terapêuticas. Pesquisas preliminares indicam que a melhoria nutricional e medicamentos específicos podem ser eficazes.

O avanço nas pesquisas, porém, enfrenta a barreira do financiamento, impactado por cortes em orçamentos de saúde no Reino Unido e Estados Unidos. Há a preocupação de que a condição se torne mais frequente em áreas afetadas por guerras e insegurança alimentar, o que pode agravar a saúde das novas gerações em escala global.

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