Informações que relacionam vacina da Pfizer ao hantavírus são falsas, afirma especialista da USP
Publicações em redes sociais propagam a informação falsa de que a vacina da Pfizer contra a Covid-19 causa hantavírus. O conteúdo baseia-se em um documento de 2021 enviado à FDA, mas não há evidências de relação entre o imunizante e a doença
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Publicações que circulam nas redes sociais, especialmente na plataforma X desde o início de maio, propagam a informação falsa de que a vacina da Pfizer contra a Covid-19 causaria a contaminação por hantavírus. O conteúdo utiliza como base um documento de 38 páginas enviado pela fabricante à Food and Drug Administration (FDA), agência regulatória dos Estados Unidos, em 2021.
A menção à "infecção pulmonar por hantavírus" no referido documento ocorre porque a empresa deve registrar todos os eventos de saúde ocorridos após a aplicação do imunizante, independentemente de haver ou não relação causal com a vacina. De acordo com Luís Carlos de Souza Ferreira, professor do Departamento de Microbiologia da USP, essa listagem é uma exigência obrigatória para a aprovação clínica de qualquer medicamento ou vacina, especificamente na fase 4 do estudo.
Não há evidências de aumento nos casos de hantavirose ou de que o imunizante tenha provocado a doença. Caso houvesse comprovação de relação entre a vacina e a infecção, a aplicação do produto seria suspensa, a exemplo do que ocorreu com a vacina da AstraZeneca devido ao risco de trombose. Vale ressaltar que o hantavírus não consta na bula do imunizante da Pfizer.
Os efeitos adversos reais da vacina são classificados por frequência. Reações muito comuns (10% dos pacientes) incluem febre, calafrios, cansaço, dor de cabeça, diarreia, dores musculares, nas articulações e no local da aplicação. Reações comuns (entre 1% e 10%) envolvem náusea, vômito, vermelhidão no local da injeção e aumento de gânglios linfáticos. Já as reações incomuns (0,1% a 1%) abrangem insônia, tontura, letargia, suor excessivo, diminuição do apetite, mal-estar, astenia e reações de hipersensibilidade, como urticária e angioedema. A paralisia facial aguda é listada como uma reação rara, ocorrendo entre 0,01% e 0,1% dos casos.
A disseminação dessas notícias falsas coincidiu com um surto da variante Andes do hantavírus, que resultou na morte de três pessoas a bordo do navio-cruzeiro MV Hondius. A embarcação partiu de Ushuaia, na Argentina, em 1º de abril, e chegou ao porto de Rotterdam, na Holanda, em 18 de maio para ser desinfetada. Em 12 de maio, o diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou que a situação requer atenção devido ao longo período de incubação do vírus, embora tenha descartado a possibilidade de uma disseminação maior.
O hantavírus é transmitido pelo contato com fezes, urina e saliva de roedores. A infecção provoca febre, fadiga, dores musculares e problemas abdominais, podendo evoluir para quadros graves de problemas cardiovasculares e pulmonares, como a síndrome da angústia respiratória (SARA).